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A PÓS- GRADUAÇÃO NOVAMENTE NA BERLINDA

As informações mais recentes sobre a pós-graduação no Brasil revelam que o setor não requer apenas recursos, mas organização e, sobretudo, transparência, para que as políticas visando à formação de mestres, doutores e pesquisadores não saiam pela culatra. Recentemente, a pós concentrou as atenções – primeiro, devido à exigência contida no anteprojeto da reforma universitária de que, para ser considerada universidade, a instituição deve oferecer ao menos três mestrados e um doutorado (exigência na qual só se encaixam 38% de nossas universidades);

As informações mais recentes sobre a pós-graduação no Brasil revelam que o setor não requer apenas recursos, mas organização e, sobretudo, transparência, para que as políticas visando à formação de mestres, doutores e pesquisadores não saiam pela culatra. Recentemente, a pós concentrou as atenções primeiro, devido à exigência contida no anteprojeto da reforma universitária de que, para ser considerada universidade, a instituição deve oferecer ao menos três mestrados e um doutorado (exigência na qual só se encaixam 38% de nossas universidades); depois, devido à divulgação do mapa da pós-graduação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes, que periodicamente checa quantos programas de pós há no país, quantos alunos os freqüentam e quantos são recebem bolsas de estudos. Entretanto, questões importantes continuam em suspenso, e os especialistas tentam respondê-las com base no achismo. Por exemplo: quem são esses alunos e o que pretendem: atuar profissionalmente como pesquisadores, lecionar ou unicamente enriquecer o currículo? Os cursos correspondem às suas expectativas? Que expectativas? E quanto às universidades que não o são, já que não possuem programas de pós: podem provar que não têm condições de oferecê-los ou são deliberadamente discriminadas pelas agências de fomento?
Também não disponho das respostas, mas creio que a Capes poderia realizar um estudo para jogar luz na face oculta da pós-graduação, essa modalidade cuja meta é preparar pesquisadores e profissionais interessados em inovar na sua área de conhecimento. E como há área, no Brasil, que prescinda deles, é pertinente a meta do Plano Nacional de Educação de dobrar o número de pesquisadores no Brasil até 2011 e crescer a 5% ao ano o número de mestrandos e doutorandos já cumprida, pois as matrículas subiram, em média, 11% nos mestrados e 14% dos doutorados a cada ano na última década. Desta maneira, supõe-se que supriremos a carência de pessoal qualificado para diversos setores nos quais os mais altos cargos são, volta e meia, preenchidos por estrangeiros (artigo publicado na Revista Dinheiro há cinco anos já alertava que o número de estrangeiros no Brasil mais que quadruplicara desde 1993 e a quantidade de autorizações de trabalho para eles, em todos os ramos da economia, mais que quadruplicara entre 1993 e 1998).

Logo, o governo reconhece que precisamos de brasileiros trabalhando pelo Brasil e anuncia que injetará recursos em programas de pós, especialmente os voltados para setores eleitos como prioritários para sua política industrial, tecnológica e de comércio exterior, como microeletrônica, software, fármacos e bens de capital. Atualmente, no que se refere à distribuição de bolsas de doutorado, a concentração é nas áreas de Ciências Biológicas, Exatas e da Terra (de cada três matriculados, dois são bolsistas). O que está obscuro é se os investimentos cobrirão preferencialmente pesquisas ou bolsas. Além disso, se for preciso escolher entre dois candidatos a bolsas, será beneficiado o que escolheu um setor priorizado pelo governo, mas não tem intenção de seguir como pesquisador, e encara a bolsa como uma forma de se manter enquanto busca emprego? Ou aquele que atua em uma área não-prioritária (embora, a meu ver, todas as áreas necessitem, no Brasil, de gente qualificada), mas deseja seguir carreira acadêmica? É quase certo que o primeiro ganhará o benefício, ainda que injustamente, pois desconhecemos o perfil dos nossos pós-graduandos. E de tal forma o governo insiste em investir às escuras que já anunciou que premiará com bolsas de pós os primeiros colocados no Exame Nacional de Estudantes, o Enade. Ótimo, mas que, antes, procure saber, entre os participantes do Enade, quais têm vocação para a pesquisa.


O que o mapa da Capes nos fornece são números gerais: temos 122.295 alunos em 1.925 programas de pós, dos quais 44.112 são bolsistas (54% da Capes; 13.166 do CNPq; 4.249 das fundações de amparo à pesquisa e 2.896 por outras instituições). Do total, são 76.323 alunos no mestrado acadêmico, 4.008 no mestrado profissional e 41.964 no doutorado. O Sudeste concentra 31.274 doutorandos (e São Paulo, mais da metade: 21.161); 45.856 no mestrado acadêmico e 2.893 no profissional. Na região Norte há 228 doutorandos e 1.507 mestrandos. O número de alunos de pós cresceu 84,6% em dez anos, mas o orçamento da Capes, 2% ao ano (entre 2003 e 2004 o acréscimo foi em torno de 30%, mas visando principalmente ao reajuste das bolsas).
Está claro que, sem recursos, não devemos esperar muito dos programas de pós. As universidades que não possuem um doutorado, por exemplo, certamente investirão em uma área menos onerosa, somente para cumprir uma exigência formal. Seria mais proveitoso para todos se agíssemos com a transparência necessária. No caso das universidades, públicas ou privadas, fazendo as contas e mostrando ao MEC o quanto lhes falta para desenvolver um programa de doutorado antenado com as necessidades regionais (estão, neste caso, as públicas da região Norte, que acusam a política de pós-graduação atual de excludente, no que são respaldadas pelos dados do mapa). No caso dos alunos, deveríamos, já na graduação, preparar os que provarem vocação para a pesquisa e carreira acadêmica, em que área de conhecimento for, e colocá-los em primeiro lugar ao repartir as bolsas. O retorno do investimento será mais garantido. Mas, para isso, é preciso que MEC e Capes realizem outra pesquisa, não para sabermos quantos estão na pós, mas quem, e para quê.




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