A nova força de trabalho proposta por Drucker identificada no Brasil em tempos de crise

Ainda que alguns setores, como a indústria e a construção civil, demandem por trabalhadores tradicionais em seus quadros funcionais, este número está se reduzindo drasticamente pela inserção de novas tecnologias nos processos produtivos que mudam a forma como se realizam as atividades produtivas, e este movimento não é privilégio apenas das grandes corporações

O que mais tenho presenciado neste ano de 2015 que está chegando ao seu fim é o número cada vez maior de empresas de todos os tamanhos e setores que estão reduzindo seus quadros funcionais (downsizing), ou estão em processos de recuperação judicial devido aos efeitos da crise política/econômica/social atual que castiga o nosso país. O número crescente de trabalhadores desempregados é assustador, tanto quanto impressionante é a nova "massa" de candidatos à procura de empregos que vem surgindo a partir de uma nova característica de perfis. Essa nova "força de trabalho" é composta por adolescentes e donas do lar que avançam em direção à oportunidades de trabalho que gerem renda para o sustento de suas famílias. Este é o novo cenário que emerge e molda as estruturas básicas da sociedade, causando rupturas sociais que revelam um novo modelo de hierarquia familiar que surge em substituição ao modelo familiar centralizador (tradicional) e corre em direção a um novo modelo familiar baseado na colaboração.

Peter Drucker (2010) já havia falado sobre uma nova espécie de trabalhador que estava surgindo já na década de sessenta do século passado, o qual denominou de "trabalhadores do conhecimento". O autor referenciou este novo movimento baseado nas transformações relacionadas ao trabalho que vislumbrou naquele período em que os processos de trabalho e as gestões estavam se modificando. Ou seja, as atividades e os processos produtivos tradicionais (manuais) estavam se transformando e, com eles, surgia uma novo modelo de trabalhador (técnico). Obviamente que este processo de transformação se iniciou em economias desenvolvidas (como nos Estados Unidos, no Japão e na Europa) e se alastrou, ainda que lentamente, para as restantes economias globais de segundo escalão. No Brasil, parece que este movimento ganha força com o período atual de desindustrialização nacional em que o nível de produtividade é o menor em mais de duas décadas. Assim, trabalhadores manuais de linhas produtivas estão perdendo seus postos de trabalho. Não apenas pelo momento ruim da economia, mas também por um movimento de mercado que está orientado a um novo tipo de trabalhador e a novos processos de trabalho.

O atual momento difícil da economia nos mostra muitas coisas que nos servem de lição. Talvez a mais nítida dessas coisas seja o fato de que as oportunidades para os trabalhadores tradicionais (não especialistas) estejam cada vez mais afuniladas e restritas para seus pares nos processos seletivos de diversas empresas de múltiplos setores de atuação. Ainda que alguns setores, como a indústria e a construção civil, demandem por trabalhadores tradicionais em seus quadros funcionais, este número está se reduzindo drasticamente pela inserção de novas tecnologias nos processos produtivos que mudam a forma como se realizam as atividades produtivas, e este movimento não é privilégio apenas das grandes corporações. Deste modo, é cada vez mais frequente a inserção de tecnologias nos processos produtivos e a necessidade latente de profissionais capacitados para operar novas máquinas e novos processos de trabalho. E esses profissionais são cada vez mais raros, visto que a demanda por eles são maiores do que a oferta em mercado.

Não estou falando somente de profissionais graduados, pois os profissionais de nível médio são os mais requisitados para diversas especialidades de trabalho, uma vez que, também, são considerados especialistas em suas funções. Ocorre que, para a grande maioria dos profissionais existentes hoje no mercado brasileiro, o nível médio pode ser um obstáculo tão grande e difícil de superar que pode representar o requisito básico entre as situações de emprego e de desemprego. São soldadores, operadores de máquinas, mecânicos, eletricistas, operadores gasistas, operadores de caixa, atendentes, motoristas, vendedores, auxiliares e assistentes diversos, etc, trabalhadores que muitas vezes não têm nem o ensino fundamental completo, que estão começando suas vidas profissionais ou que estão no mercado há anos, se encontram desempregados e querem se reempregar e isto ocorrendo num momento complicado de retração econômica que impacta negativamente as empresas. A crise atual revela os gargalos que sempre estiveram presentes nos tempos de bonança econômica dos últimos 10 anos, e que cobram seu preço corrigido à juros por um período em que o país se inflou demais no tocante ao consumo quase que irrestrito.

Apesar de uma situação muito delicada em que as demissões superam as contratações, fica cada vez mais evidente de que existem diversas oportunidades no mercado para profissionais capacitados para desenvolverem novas atividades produtivas. Em tempos de crise, o mercado fica ainda mais exigente quando verifica a necessidade de contratar, o que é, de certa forma, natural. Os processos seletivos ficam cada vez mais longos, além de mais criteriosos. Exigências mínimas como o ensino médio completo e o básico em informática são atributos essenciais que habilitam candidatos a concorrerem por uma vaga comum, por exemplo. Isso pode parecer trivial, mas não é. Observa-se que a "grande massa" de trabalhadores, experientes e novatos, não têm esses requisitos mínimos exigíveis, apesar de um esforço agressivo por parte do Governo em proporcionar formação profissional adequada para os trabalhadores através de cursos de qualificação, como o Pronatec, por exemplo. Nos últimos 4 anos, milhões de brasileiros puderam se qualificar profissionalmente, a maioria direcionados a cursos relativos à indústria e à construção civil. Pasmem: exatamente esses dois setores foram os mais impactados pela crise!.

Não vou falar sobre os diversos erros do Governo em suas políticas sociais e econômicas. Eu mesmo já falei em outros artigos sobre esse tema e há diversos autores que nos abrem os olhos sobre tal situação. Ainda que o assunto central deste artigo não seja orientado à política governamental atual, não posso deixar de pontuar que, como disse um especialista no assunto em um programa televisivo, "a crise que castiga o nosso país desde o início do ano de 2015 não é, unicamente, uma crise econômica e/ou social. É mais do que isso: é uma crise política". O cenário atual fala por si só. A quantidade crescente de desempregados que aumenta a cada dia parece remeter àquele dito popular que diz que "quando o rio seca, podemos ver todos os seus detritos" [aqui, cada um que faça sua própria reflexão]. A procura acelerada por oportunidades de emprego, cada vez mais escassas, dá origem ao fantasma das filas colossais que assombra empresas anunciantes e intermediadoras de mão de obra. A lei do mercado que estabelece o equilíbrio entre oferta e demanda nunca foi tão prática como se observa atualmente a ponto de servir de estudo, inclusive, para àqueles com dificuldades no entendimento da teoria econômica.

Para concluir, um novo movimento ascende no ambiente de mercado que vai em direção à mudanças e rupturas na forma como as organizações e a força de trabalho se estruturam e interagem entre si nos ambientes mercadológicos atuais. Este novo movimento que transforma as estruturas e os processos de trabalho impacta diretamente nos novos perfis exigíveis de trabalhadores, onde a técnica e a prática já não são mais critérios isolados ou suficientes. Este novo perfil de trabalhador exige "conhecimento teórico" do futuro profissional. Tal conhecimento só pode ser alcançado através de instituições de ensino técnicas e/ou de ensino superior, ou através de educação continuada em instituições de ensino diversas. E isso exige uma mudança de mentalidade profunda no senso comum da maioria dos profissionais tradicionais que procuram uma nova oportunidade de emprego, inclusive para àqueles que estão empregados. Pesquisas revelam que profissionais que investem em suas formações acadêmicas têm maiores possibilidades de promoções de cargos e aumentos consubstanciais em suas remunerações durante e após concluírem suas formações. E a educação continuada pode ser a chave para garantir melhores oportunidades de colocação dentro ou fora da empresa atual. O grande desafio do futuro profissional será sua capacidade de se reinventar.

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