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A nova cultura cibernética no sertão nordestino

Uma das principais características da globalização é a existência de fenômenos culturais de amplitude mundial. A partir dos anos 90, essa tendência se fortaleceu com a popularização da tecnologias de comunicação. A cultura regional está tornando-se cibernética e ganhando status de sociedade paralela. A Internet está demolindo o Muro de Berlim ideológico que existe entre os países. Na cultura cibernética o homem é avaliado por aquilo que pensa, não pelo que aparenta ser. Como conseqüência disso, a sociedade terá que rever conceitos como beleza, moda e intelectualidade. Também é pressuposto dessa cultura, o princípio do compartilhamento. O Napster foi o primeiro software P2P que tornou possível a troca de música entre computadores de todo o globo terrestre. Veja o exemplo de um morador da Nova Zelândia, que a partir da troca de arquivos, pode ter acesso à Bossa Nova Brasileira em questão de minutos. Outra característica dessa cultura é a heterogeneidade de sua composição. Um exemplo é a criação de softwares de código aberto como OpenOffice e FireFox. Milhões de programadores espalhados pelo mundo contribuem voluntariamente com o sistema, tornando-o um produto típico dessa nova era. Softwares que comungam desse princípio estão recebendo apoio de grandes entidades, como o Governo Brasileiro, que já adota software livre em suas empresas. O próximo passo do Governo é substituir o sistema operacional Windows pelo Linux, mudança que fará a União economizar milhões e o mercado rever suas estratégias. O adulto do século XXI está passando por um processo de re-socialização. O choque da realidade virtual ainda é mínimo frente às novas possibilidades. Telefonia, antes paga, agora é feita via IP gratuitamente para qualquer lugar do mundo. Se o usuário preferir, pode realizar uma videoconferência sem ônus adicional. As empresas de telefonia terão que procurar novos mercados ou adaptar-se a essa nova realidade. Os filmes americanos, que antes demoravam meses para chegar aos cinemas brasileiros, agora podem ser vistos na internet, antes mesmo de suas estréias no cinema. Esse fato ocorreu com mega-produções como Spiderman e Star Wars III. O poder de Hollywood tende a minimizar diante desse novo cenário. Campanhas publicitárias milionárias estão sendo sufocadas pelo Marketing Viral. Com custos próximos de zero, mensagens comerciais baseadas na criatividade, circulam através de e-mail com uma velocidade digna de vírus como o LoveSan. A transformação advinda com a nova cultura cibernética dissemina o acesso aos veículos de comunicação. Antes, somente as grandes empresas portadoras de máquinas e equipamentos de alta tecnologia podiam publicar informações com grande abrangência. Hoje, através da internet qualquer pessoa pode criar um blog e publicar artigos, reportagens, fotos, poesias e protestos com alcance mundial. Essas novas tecnologias de comunicação estão redefinindo a teoria do fluxo da informação preconizada por Herbert Schiller (1968). Os norteadores dessa mudança são os doze princípios traçados pelos pesquisadores da Unesco através do Relatório Sean McBride (1983). O primeiro passo é a própria popularização da tecnologia, que está permitindo a minimização dos desequilíbrios e desigualdades que caracterizam o predomínio do Primeiro Mundo sobre os demais. A Internet oportuniza uma despolarização da geração do conhecimento, que pode vir dos folhetos da Literatura de Cordel no sertão nordestino, bem como das novas pesquisas realizadas pelos doutores da Fundação Getúlio Vargas. A Internet também permite a supressão dos efeitos negativos de certos monopólios públicos ou privados. Um bom exemplo é o indiscutível poder de comunicação da Rede Globo, que já sofre um contrapeso importante. Recente pesquisa Ibope/NetRatings, aponta o brasileiro como o internauta que mais tempo passa navegando na web, ou seja, menos tempo diante da TV. Com a proliferação do serviço de conexão Banda Larga, a tendência é esse tempo de conexão crescer mais ainda. No entanto, a maior contribuição da Internet tem sido a eliminação das barreiras internas e externas que se opunham à livre circulação e a uma difusão mais ampla e equilibrada da informação. Simplesmente não existem fronteiras na Internet. Até mesmo os diferentes idiomas, que poderiam se tornar um obstáculo, são facilmente traduzidos através de sites como BabelFish. Portais de pesquisa como Google, Yahoo! e AltaVista, permitem consultas a um pluralidade de fontes e canais de informação. O usuário têm a possibilidade de verificar uma diversidade de bases ideológicas, confrontando opiniões na busca de um próprio parecer. A previsão do instituto americano de pesquisas IDC - International Database Corporation - é de que no final de 2005, cheguemos a 1 bilhão de pessoas conectadas à Internet. A Internet permite uma liberdade de expressão e informação. O usuário passa a controlar o seu saber. É livre o acesso a produções científicas de todo o planeta, incluindo revistas, jornais, e-books, sendo possível uma interação através de e-mail ou fóruns, com os autores dessas produções. Essa relação permite uma contínua redescoberta dessas obras e mapeamento de novos caminhos para o autodesenvolvimento. Com a nova ordem da comunicação mundial, é responsabilidade de cada região enaltecer sua identidade cultural. Um bom exemplo é a cultura do Brega Paraense. O estilo brega surgiu na ressaca do movimento Jovem Guarda. Amado Batista em Goiás e Reginaldo Rossi no Recife, foram os responsáveis por tornar o estilo conhecido em todo o Brasil. A partir dos anos 90, o Pará redefiniu esse estilo através de sua essência. A melancolia das letras de até então foram substituídas por batidas mais quentes, solos de guitarra roqueira, swing caribenho e danças amazônicas.O estilo ganhou uma nova logística de funcionamento. A mídia alternativa regional tornou-se parceira na distribuição dos discos. Belém do Pará está na vanguarda desse novo cenário musical, funcionando sem grandes gravadores e faturando através da arrecadação de shows com preços acessíveis às grandes massas. A divulgação ocorre através de rádios comunitárias, fã clubes, TV regional, carros de som, internet e boca-a-boca. Esse novo fenômeno cultural de amplitude globalizada não se sustenta sem o marketing. Para começar o próprio nome Brega Paraense é questionado por muitas pessoas que acreditam na contaminação pejorativa do termo. Alguns sugerem Amazon Ritmo, que também é questionado pelo estrangeirismo. O produto também vem sofrendo modificações. Em 2002 surgiu o Techno Brega, estilo que une as batidas eletrônicas com o ritmo do Pará. O Brega Paraense é um exemplo emblemático da nova cultura internacional. União entre o folclore amazônico e danças do Caribe; letras com temáticas regionais e batidas computadorizadas; vendagem dos discos nos camelôs e distribuição livre pela internet; comunicação informal e exposição em websites. A cultura local irá se adaptar a esse novo padrão de funcionamento, tornando-se vendável e aberta a fusões. A mercantilização cultural através das novas tecnologias de comunicação permitirá uma amplitude global da lucratividade. Pequenas regiões serão exportadoras de artesanato (arte sacra em madeira), música (xaxado), alimentos típicos (doce de leite), folclore (bumba-meu-boi) e literatura (cordel). Mesmo diante do desafio da inclusão digital, as comunidades on-line são irreversíveis, mantendo a nova ordem da comunicação mundial a um click de qualquer distância.
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