A meritocracia de Forrest Gump

Correr, simplesmente por correr, como Forrest Gump faz no filme de mesmo nome, talvez não seja a solução de todos os problemas. Em uma ideia errada de meritocracia, o filme deixa o destino tomar conta da vida. Será mesmo que devemos ser reféns do acaso?

“Minha mãe sempre dizia que milagres acontecem todo o dia. Tem gente que acha que não, mas é verdade”

Fiz o caminho inverso com Forrest Gump. Não o assisti nos anos 90, quando era badalado, sucesso de bilheteria e com seis Oscars no currículo. Assisti dez anos depois, numa Sessão da Tarde da Globo. O resultado foi um bom entretenimento, mas que nada reverenciava a admiração dada ao filme na então década passada. Dei uma segunda chance ao filme e refiz a experiência esses dias, com a intenção de analisar amplamente seu propósito e ideologia. A conclusão remeteu novamente a uma frase que senti na primeira vez em que vi Forrest: este filme me incomoda.

Na história, Forrest Gump, o personagem vivido por Tom Hanks, é um rapaz com um Q.I abaixo da média e que, sentado em uma parada de ônibus, conta sua história de vida a desconhecidos por ali aparecem. A trajetória de Gump tem passagem crucial pela história recente dos Estados Unidos, colocando o personagem em momentos chaves e importantes para os americanos e para o mundo.

O roteiro dá um tom de fábula a história. Construído em forma de contos episódicos contados pelo próprio Gump (e que levam consigo o carisma gigantesco de Hanks), a história ganha traços de ingenuidade e leveza. Forrest é movido puramente pelo amor que tem por sua mãe e por Jenny, a amiga dos tempos de escola e pela qual carrega sentimentos durante todo o longa. E assim como a pureza e a inocência movem a vida de Forrest, o mesmo deixa a vida movê-lo, ou, traduzindo para o brasileirês, ele deixa a vida levá-lo.

Mesmo premiado com um Oscar (e com méritos), o roteiro do filme me incomoda unicamente pelo fato de não manter um determinado grau de verossimilhança com a realidade. Afinal, mesmo sendo contado pelo ponto de vista de Forrest, a história se passa dentro do nosso mundo real, (inclusive trabalhando com fatores históricos), e isso acaba deixando o filme soar, além do não crível, como oportunista.

A vantagem do roteiro episódico permite ao diretor Robert Zemeckis contar toda a vida de Gump baseado em determinadas ocasiões previamente escolhidas, e também de “saltar” outros momentos que provavelmente não deveriam ter sido tão leves como os que nos são apresentados. Como é o próprio Gump que conta a história, esse fato não pode ser apontado como uma falha, além de contribuir com o propósito de fábula trabalhado.

Mas acima de tudo, o roteiro contribui com a ilusão criada por Gump. Ao repetir inesgotavelmente que “a vida é como uma caixa de bombons, você nunca imagina o que tem dentro dela” (!?) e iniciar e terminar o filme com uma pena sendo “levada pelo vento”, o longa toca na questão do destino, pressupõe que o destino é o senhor do tempo e que precisamos apenas seguir o rumo, o percurso, a boiada.

Forrest é essa pena, sendo jogado de uma situação para outra, sem muito pensar ou decidir, ele apenas age. Quando pedem para correr, ele corre, quando o convidam para lutar na guerra, ele luta. As próprias relações afetivas de Forrest se constroem assim. Ele não vai de encontro a Jenny e Bubba, por exemplo. Simplesmente são as opções que restam, e que o diretor tem a sacada genial de representar essas duas cenas, mesmo ocorrendo com mais de dez anos de diferença, de maneira idêntica.

A leitura de que o dono do destino é a própria sociedade americana é válida e importante, mas tenho a impressão que o filme é coberto por tantas camadas que as críticas a esse sistema egocêntrico americano tornam-se demasiadamente leves. Visivelmente concebido como um filme para americano ver, Forrest Gump parece muito mais acalentar esse ego, do que incriminá-lo. Corremos sem direção, sem propósito, mas ao menos corremos, somente corremos…

Meritocracia

Em 1994, ano de lançamento do filme, talvez essa palavra não estava tão em voga como hoje. Vinte anos depois, ela virou sinônimo de competência e crescimento profissional. Meritocracia nada mais é do que a ascensão por base no próprio mérito. Ou seja, a tua própria competência te levará a alcançar teus objetivos. O sonho do sucesso capitalista que, se jogado lógica de Gump, torna-se um desastre absoluto.

O filme segue a lógica “titãnesca” onde o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. É assim que ele conquista sua história. O acaso o leva a faculdade, que o leva ao exército e a participar de todos os fatos históricos do filme. Assim como a pena levada pelo vento, Forrest é jogado as correntezas. Ele nunca busca um final, tudo é ao acaso, como escolher um bombom de uma caixa. E esse ponto torna-se perigoso. É óbvio que, quando inserido em determinada situação, é a própria competência de Forrest que o faz ascender, mas em todas as situações, ela acontece às custas do acaso, da sorte ou do azar. Se é que esses existem.

E quando desamparados de uma sociedade a qual tome o leme do barco, como foi o caso de Forrest, o acaso torna-se então uma sentença de morte. A fábula contada na história é muito bonita e sutil no contexto de um país de primeiro mundo. Jogada a outro cenário o resultado pode ser trágico ou então despretensioso. Em certo momento do filme Forrest diz que milagres acontecem. Trazendo para o nosso contexto nacional, é como ouvir as famosas “Deus vai dar um jeito”, ou “no fim, tudo de ajeita”.

São pensamentos minimalistas que representam certa falta de ambição, coragem, visão daqueles que as dizem. Correr, unicamente por correr não significa mérito nenhum. É preciso um ponto de chegada, ou algo que motive essa corrida. Caso contrário a própria corrida não tem sentido. E pior do que correr sem sentido, é esperar a intervenção divina para dar o primeiro passo, ou o Bolsa Família para mudar de vida.

A meritocracia esta aí para estimular uma sociedade, mesmo que utópica, de direitos e oportunidades iguais a todos. Ainda não acredito que seja o Estado o motivo e circunstância de nossas vidas. Nosso futuro não deve e não pode estar ligado a ele, até por que o nosso futuro é o que menos interessa a quem lá está.

Forrest Gump nos diz que se deixarmos o vento nos levar e cumprirmos nossa função social, um bom futuro nos aguarda. Discordo. No fundo, nunca deixamos de ser os primitivos que habitaram este planeta nos tempos das cavernas, e na lei da selva, o mais forte vence o mais fraco. Não que devamos nos digladiar entre si, mas esperar a comida cair na boca e a água jorrar da terra é uma forma de suicídio que parece estarmos cada vez mais acostumados.

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