A melhor estratégia de vendas
A melhor estratégia de vendas

A melhor estratégia de vendas

Não sou profissional da área, mas tenho vasta experiência como cliente. E esse é o meu ponto de vista.

Quando comprei minha primeira motocicleta, em 2010, só encostava nela para mexer quem vestia a farda da oficina autorizada. Era relativamente caro. Mas, com isso, comprava também a segurança de que a magrela estava em boas mãos. O atendimento, nos melhores dias, era protocolar. Nos piores, detestável; quase nunca sabia quem era o mecânico responsável pela minha propriedade. Tudo bem, a cada revisão recebia a moto brilhando de limpa no final da tarde.

Até o dia em que precisei de um bom atendimento.

Quando atinge uma certa quilometragem, uma moto de baixa cilindrada requer a troca do conjunto-tração, mecanismo que inclui aquela corrente responsável por movimentar o veículo. No meu caso, a corrente partiu parcialmente -- a moto rodava, mas havia o risco de uma ruptura total, o que implicava a possibilidade de quebrar um braço, costela ou cabeça numa queda. Mesmo com as revisões em dia, ninguém da autorizada me disse: "fica atento, com essa quilometragem é bom trocar o conjunto-tração".

Com a corrente partida, fui em duas autorizadas, localizadas em cantos opostos da cidade. Nenhuma delas substituiu o conjunto. A peça estava em falta. Nem sequer fizeram algo para evitar um eventual acidente. Só o péssimo e velho "sinto muito, senhor" -- para ser justo, o primeiro recomendou que eu fosse andando "devagarzinho pelo acostamento". Arrisquei. Quando virei a esquina, avistei uma oficina qualquer; ali mesmo comprei as peças e pedi para o mecânico substituí-las; não levou mais de 40 minutos.

O atendimento ruim não compensava o serviço, afinal.

E aí me indicaram a oficina do Chiquinho.

Chiquinho toca uma oficina pequena há décadas, no alto da ladeira que leva ao bairro Castelo Branco. Comecei trocando o óleo, gostei do preço e pedi uma revisão.

Chiquinho não trata os clientes como tapados completos em mecânica. Se tem um problema, ele diz o que é, diz o que pode ter causado e fala com absoluta sinceridade. No fim, mostra uma planilha com tudo o que foi feito e, antes que o cliente saque a carteira para pagar, diz: "espere, homem... dê uma volta com ela, veja se está tudo em ordem".

Chiquinho acompanha a quilometragem da moto e sabe quando cada peça tem que ser trocada. Anota tudo em sua indefectível planilha e quando o motociclista volta à sua oficina, já tem todos os dados à mão. Ele não guarda os nomes na cabeça, mas sempre se referiu a mim como "o mago".

Quando a bronca é mais séria, Chiquinho vai até onde a moto está com as peças para conserto. E se não der certo, ajuda a rebocar até a oficina, onde o trabalho pesado começa. Certa vez a bomba de combustível resolveu falhar um dia antes de uma viagem, e pedi logo socorro, lá pelas oito horas da noite. No outro dia, de manhãzinha, Chiquinho apareceu, fez o que pôde, mas não teve jeito: o problema era grave.

Na oficina -- que recende a graxa, suor e tudo a que um motociclista está acostumado -- dedica-se durante horas à troca da peça. Penso que o engenheiro que projetou o veículo não raciocina sobre essas coisas de ordem prática, para entucar uma bomba de combustível num local quase inacessível. Terminou, deu partida, testou luz de freio, setas... "vá lá, pegue a estrada. Se der qualquer problema no meio do caminho, ligue pra mim". Antes que eu fizesse menção de entregar o cartão de crédito, ele disse: "deixe quieto, quando você voltar a gente se acerta. O importante é você chegar lá".

A moto rodou feito nova 400 quilômetros ida e volta.

Naturalmente, voltei à oficina para acertar o pagamento. Não é todo empresário que confia um produto de R$ 500 à boa-fé do cliente.

Um dia, me deparei com o destino que aguarda todo e qualquer motociclista: um acidente. A moto sofreu mais danos do que o piloto. Liguei para Chiquinho, falei do ocorrido e pedi para marcar um horário para ver o orçamento. A primeira coisa que ele perguntou foi: "mas e você tá bem, não teve nada?".

Vendi a velha magrela, passei uns anos a pé, comprei outra de um fabricante diferente e pensei em dar mais uma chance às autorizadas. Nada feito. Mais do mesmo.

Ocorreu que, em algum buraco da cidade -- jamais saberia apontar qual -- rebentei um dos amortecedores dianteiros. O fluido começou a vazar, não poderia deixar a situação daquele jeito por muito tempo. Era um serviço para Chiquinho.

"Eita, o negócio foi brabo, parece uma cachoeira", atestou. Com a paciência habitual, explicou o problema e o que precisava ser feito. "Vamos trocar os fluidos dos dois amortecedores e a borracha só desse". Fez o serviço, disse quanto custava e concluiu: "vou anotar aqui para ter um controle da quilometragem".

Chiquinho não trata o cliente como um tapado; nem tampouco elabora construções retóricas para vencer pelo cansaço. Chiquinho mostra o que tem que ser feito, faz, e é pago por isso. Chiquinho não tem uma fanpage onde utiliza os memes mais descolados do momento. Sua estratégia de engajamento e conversão é a mais tradicional e eficaz de todas: entregar o que é prometido.

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