Café com ADM
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À Margem

O pingo de chuva constante, no piso coberto por um plástico preto, tirou Marco Aurélio do seu sono agitado. O frio do colchão, ainda úmido pela goteira da noite anterior, e que não secou completamente à exposição do sol fraco de outono, fez os ossos do homem de quarenta anos, doerem. A dor pior, no entanto, era a cada dia olhar o barraco de madeira e chapas de metal, onde morava. Marco não conseguiu voltar a dormir. Resolveu fazer um café, se é que ainda restava um pouco de pó, o suficiente para um café fraco. Sim, havia! Logo desistiu da idéia, pois era para o café da manhã dos seus filhos. Num passo chegou à cozinha. Passou água quente no coador com o pó utilizado no dia anterior, e com a caneca de café ralo, saiu para a liberdade, embaixo do viaduto. Seu barraco, na verdade alugado, ficava na ponta, com metade dele pra fora da cobertura do viaduto. Daquele ponto, privilegiado, via o movimento de carros e pessoas, na rua que beirava a sua casa. Marco Aurélio, técnico de contabilidade, já com dois anos de desemprego, lia tudo que aparecia na sua frente: livros velhos, revistas, jornais. Sua preferência era por textos que chamam de auto-ajuda. A relação era estranha. Enquanto lia, se enchia de esperança, mas ao final do texto a raiva crescia, e esbravejava contra o autor. Queria ver ele escrever isso, se vivesse aqui! dizia. Resolveu ir procurar um desses autores e conversar. O problema é que não sabia como localizar nenhum deles. Lembrou do vizinho, que era faxineiro em um uma pequena empresa, e pediu ajuda. Deu uma lista de vinte e oito nomes, e entregou ao amigo. Naquela mesma noite, o amigo trouxe o telefone de cinco escritores. Marco ficou contente, num misto de alegria pela possibilidade de conhecer algum e pela chance de provar, a si mesmo, que sua teoria estava correta. Telefonou para os cinco. Um estava viajando e só voltaria no mês seguinte, outro não quis falar com o Marco, o terceiro falou mas disse que não poderia se encontrar; com o quarto e o quinto, a secretária disse que estavam ocupados, preparando o próximo livro. À noite, o vizinho amigo entregou uma lista com oito números de telefone, sendo que quatro não eram da cidade. Com os quatro escritores, que residiam na cidade, Marco não conseguiu nada. Pegou um pouco do pouco dinheiro que ainda tinha e ligou para os outros. Na primeira ligação que fez, Marco conseguiu falar com Idelfonso. Verdade que não era um escritor famoso, mas já era alguma coisa. Marco contou onde morava, o que fazia e qual era sua dúvida em relação aos textos que lia. Como o tempo do cartão estava acabando, Marco pediu o endereço, que Idelfonso deu o da caixa postal, e disse que escreveria uma carta contando o que pretendia. O dia inteiro foi utilizado para escrever. Quando o texto ficava muito dramático, ele rasgava. Se ficasse com palavras revoltadas, também rasgava. Finalmente, no início da noite, a carta estava pronta. Uma semana depois e a resposta ainda não havia chegado na casa do conhecido, que Marco colocou como endereço do remetente. Na semana seguinte a carta chegou. Nela, Idelfonso contava que não seria possível ir até a cidade de Marco, mas que teria muita satisfação em recebê-lo. Disse que enviaria um vale postal para a passagem e pediu que ligasse, a cobrar, à noite, no dia que recebesse a carta. Quando a esposa chegou do trabalho, Marco Aurélio conversou e mostrou a carta. Concluíram que valia a pena. Ligou para Idelfonso e ficou tudo acertado. Ele viajaria no sábado seguinte. Quando estava chegando na cidade, Marco estava muito ansioso, enquanto Idelfonso, na rodoviária, não parava de esfregar as mãos. Sem se conhecerem, demorou um pouco para um identificar o outro. Além do cumprimento, a ansiedade não deixou que conversassem durante o trajeto para a casa de Idelfonso. Marco ficou um pouco decepcionado. A casa não era como as que aparecem em revistas e era alugada. Pensou: Se bem que, perto da minha, é um palácio. Foram para o quarto dos fundos, onde Idelfonso trabalhava, para conversarem. Ele ofereceu cerveja, mas Marco não bebia e nem fumava. Religião? perguntou Idelfonso. Não. respondeu Marco Não gosto. A primeira coisa que Marco Aurélio queria saber era por que Idelfonso aceitou conversar com ele. Marco disse Idelfonso , logo depois do seu telefonema eu comecei a pensar no que eu escrevia e para quem escrevia. Sendo totalmente sincero, fiquei preocupado. Comecei a pensar se eu não estava sendo elitista, escrevendo para uma classe que eu, achava, que pertencia. Isso ficou martelando na minha cabeça, até receber sua carta. Quando recebi, li e reli sua carta, tive a certeza que meus textos poderiam parecer elitistas, mas não eram, ou melhor, eram sim, mas não para uma elite de classes sociais. Era para uma elite de pessoas desesperançadas, sem sonhos, sem anseios, com raiva da vida. Pessoas que acreditam não ter mais aonde chegar, que se acomodam, que estão tristes, que sempre vêem o revés como um fracasso e não como um possível caminho para o sucesso. Pessoas que vêem o sucesso, apenas, como status e dinheiro. Que não percebem que sucesso é um estado da alma. É para essas pessoas que escrevo. É para mim que escrevo. Pra você? perguntou Marco Não entendi! Você acha que também não tenho todos esses problemas? Que não fico desesperançado, às vezes sem rumo, olhando para um amanhã vazio? Que estou sempre alegre e feliz da vida? Antes fosse assim. Mas eu disse Marco tenho mais razões que você. Claro que tem! Não é disso que estamos falando! O que você não pode é deixar como estar, ficar à margem e olhar o rio passar. Tem que sonhar, correr atrás, não esperar que Deus mande a solução. Isso, Marco, serve para qualquer um. Durante o final de semana, enquanto Marco conhecia a cidade, continuaram a conversar. Quase na hora de ir embora, Idelfonso propôs ao Marco que, conseguindo um emprego para ele, viesse morar na cidade. Imediatamente Marco disse que não. Já estava acostumado na cidade onde morava, habituado com os amigos, os filhos com os coleguinhas e desfilou uma série de motivos. Marco, é disso que falamos o tempo todo! Você está à margem, o barco passa e você apenas olha! Para que se arriscar num rio que não conhece! Na margem, sua terra firme, ainda que inóspita, você acha que está seguro? Utilize a viagem de volta para pensar e, mudando de idéia, me ligue. «Pare pra pensar. Pense muito bem.»
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