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A liberdade de expressão e a “corrida armamentista” pela notícia

“Liberdade de expressão” é um conceito praticamente sagrado em nosso país. Na nossa história, raros foram os momentos em que houve, efetivamente, liberdade para se noticiar sem algum tipo de censura.

Liberdade de expressão é um conceito praticamente sagrado em nosso país. Na nossa história, raros foram os momentos em que houve, efetivamente, liberdade para se noticiar sem algum tipo de censura. Neste contexto, os últimos vinte anos foram exceção; e, na última década, convivemos adicionalmente com a revolução tecnológica da internet, TV a cabo e demais facilidades em comunicação que aumentaram explosivamente o volume de conteúdo comunicado. E agora, na atual crise política, a reação destes dois componentes liberdade e volume de comunicação acabaram por supersaturar o ambiente de comunicação por meio de uma corrida armamentista entre as mídias que, ao que parece, não trouxe os melhores resultados à sociedade ou aos jornalistas. É isto o que veremos neste artigo.

Antes de prosseguir, preciso conceituar corretamente o que quis dizer por corrida armamentista. Este é um termo utilizado na teoria dos jogos (um ramo da matemática utilizado para modelar decisões interativas, quando a decisão de um influencia e é influenciada pela decisão do outro), muito freqüente em análises microeconômicas. Imagine uma cidadezinha com somente dois postos de gasolina: o Alfa e o Beta, que dividem igualmente o mercado local. Suponhamos que ambos comprem gasolina do distribuidor por $2,00/litro e revendam por $3,00/litro. Uma bela manhã, o dono do posto Alfa resolve fazer uma promoção para tomar mercado do Beta, e reduz seu preço para $2,95/litro. Isto faz com que o posto Alfa de fato domine o mercado, e a reação do posto Beta é contra-atacar, baixando o preço para $2,90/litro. Observando que, agora, é o posto Beta o dominante, o posto Alfa faz uma nova promoção, reduzindo seu preço para $2,85/litro. Em poucos dias, esses descontos sucessivos acabam por fazer com que tanto Alfa quanto Beta pratiquem preços muito próximos de seu custo (eventualmente, com prejuízo), e os consumidores locais poderão abastecer em qualquer um deles por algo próximo a $2,00/litro. Nesta corrida armamentista entre os postos Alfa e Beta, ambos perdem (na terminologia da teoria dos jogos, temos um jogo não-cooperativo de soma negativa) e, no longo prazo, nem os consumidores se beneficiam: muito provavelmente, um terceiro agente (ex. posto Gama) acabará arrematando os dois postos, e criando um monopólio local que venderá gasolina por mais de $3,00/litro.


Vamos agora analisar a corrida armamentista que vem ocorrendo na imprensa, tomando como exemplo o noticiário relativo à atual crise política nas principais revistas semanais: Veja, IstoÉ, Época e Carta Capital. Todas elas estavam em equilíbrio até a reportagem-estopim da Veja, sobre o funcionário dos Correios recebendo propina. Esta reportagem colocou a Veja à frente na corrida, conquistando espaço sobre as outras. Dali para frente, todas as revistas se esforçaram para estampar em suas capas notícias tão impactantes quanto à inicial da Veja, inclusive a própria. Pelo ponto de vista do editor-chefe de qualquer uma destas revistas, conseguir uma matéria-bomba passou a ser fundamental, pois ele sabia que todos os outros editores-chefes estariam fazendo o mesmo. O resultado foi que, durante várias semanas, era absolutamente necessário para todas as revistas obter notícias extraordinárias sobre a crise, a qualquer custo. Se alguma revista não conseguisse obter alguma notícia-bomba, o resultado seria devastador para as vendas naquela semana, já que a maioria das concorrentes teria capas espetaculares.

À primeira vista, tem-se a impressão que esta corrida armamentista entre as revistas poderia contribuir para aumentar o nível de informação oferecido ao público, já que todas as revistas estariam se esforçando ao máximo para noticiar os detalhes da crise política. Acontece que a oferta de fatos novos não necessariamente acompanhou a demanda dos jornalistas muito menos a capacidade dos leitores em absorver tamanha avalanche de notícias fora do comum. Isto acabou fazendo com que as revistas reduzissem substancialmente suas margens de segurança para a publicação de notícias: Neste período de corrida armamentista houve um sensível aumento na agressividade na obtenção de notícias, nem sempre checadas com a diligência necessária. Isso sem contar com a publicação de notícias a qualquer preço, como as relacionadas às musas do mensalão, que em nada acrescentaram à sociedade. Isso se traduziu em dois fatores negativos que acabaram por neutralizar os benefícios inicialmente citados: a)Stress excessivo dos jornalistas e do público, com o excesso de notícias; e b)Diminuição da qualidade/credibilidade das notícias publicadas.

Um dos principais estudiosos de teoria dos jogos Martin Schubik, de Yale concebeu, na década de 1970, um exercício interessante para explicar a corrida armamentista e seus efeitos: o Leilão de Dólar. Schubick propunha a seus alunos de pós-graduação o leilão de uma nota de um dólar. Seria um leilão como outro qualquer, onde quem desse o maior lance cujo lance mínimo era de 5 cents levaria a nota; mas havia uma regra adicional: quem desse o segundo maior lance também deveria pagar, mesmo sem o direito de levar a nota. Para qualquer um dos presentes ao leilão, seria interessante dar o lance inicial, pois isso significaria um lucro de 95 cents. Porém, quando isso acontecesse, também seria conveniente para qualquer outro participante dar um lance ligeiramente maior (p.ex.: 10 cents), o que traria um lucro substancial: 90 cents. Acontece que, quando um segundo participante desse o lance, o primeiro ficaria em grande desvantagem, o que o incentivaria a fazer um novo lance. Este novo lance faria com que o outro ficasse em desvantagem maior ainda, e assim sucessivamente. Na média, Schubik vendeu seus dólares por US$4,20, havendo casos em que o leilão superou os US$14,00. À primeira vista, o resultado é irracional, pois qualquer lance superior a US$1,00 é deficitário, mas o que Schubik quis mostrar com esse exercício era justamente isso: que jogos de corrida armamentista não têm por objetivo a vitória, mas perder menos que os concorrentes.

A configuração atual de nossa sociedade liberdade de expressão praticamente irrestrita, livre competição entre os órgãos de imprensa, e grande número de agentes de notícia é um cenário ideal para a deflagração de uma corrida armamentista análoga ao Leilão de Dólar de Schubik. Para um agente de notícia qualquer, sempre será vantajoso dar o próximo lance, ou seja: passar à frente dos demais. Acontece que, ao fazer isso, esse agente estimula os outros a dar um lance ainda maior, e o resultado é uma corrida praticamente sem fim. O problema disso é que os meios para se manter à frente na corrida nem sempre são os melhores para a sociedade. Por exemplo: qual a vantagem para a sociedade em saber se a musa do mensalão é a Fernanda Karina ou a Diana Buani? Sem dúvida, nenhuma; mas para o órgão de imprensa que noticiou esse fato, representou um lance a mais no leilão.

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