A lagarta e a borboleta - metamorfoses humanas

Em toda a parte, filósofos, psicólogos e pesquisadores do comportamento humano tem manifestado cada vez mais uma inquietante questão sobre os caminhos que o indivíduo vem trilhando na sociedade moderna. A solidão e o isolamento proporcionados pela “virtualização” do mundo globalizado. Neste artigo faz-se várias analogias para lembrar de que tudo está conectado, e que precisamos retomar nossas relações com o mundo físico real.

O ciclo de evolução biológica de uma borboleta passa por quatro estágios, e em cada estágio a forma, o habitat e o comportamento podem variar tanto que poderíamos dizer que tratam-se de quatro indivíduos distintos, se não soubéssemos que se trata de um único. Do ovo nasce a lagarta, da lagarta forma-se a crisálida, e da crisálida surge então a borboleta. Ovo, lagarta, crisálida e borboleta. O principal objetivo de uma borboleta é a reprodução e manutenção da espécie para outros fins de equilíbrio na Natureza. Mas sabemos que ela não tem consciência disso.

Um ser humano adulto normalmente está em constante evolução. Evolução física, emocional, intelectual, cultural, psicológica e espiritual, etc. Quantas metamorfoses acontecem durante o amadurecimento de um ser humano adulto? A psicologia costuma dividir as etapas de uma existência humana em quatro fases: criança, adolescente, adulto e idoso. Mas as metamorfoses humanas superam essas divisões, e a cada evento novo da vida social o humano se transforma. Deslumbrantes, livres e sociáveis como borboletas adultas, ou enclausurados, solitários e aparentemente inertes como crisálidas; humanos vivem entre metamorfoses múltiplas constantes. Desafios profissionais, formação intelectual, convivência social, relacionamentos... a vida de um adulto é tumultuada por evoluções e conflitos. E nessa que mais parece uma selva tropical de existências humanas tão distintas e distantes, encontra-se o indivíduo. O indivíduo íntimo, exclusivo, essencial. O indivíduo só. Cada um como um ser social, incorporando o todo, continuando a ser só ele mesmo.

O voo das borboletas na primavera, quando observado num momento em que há várias borboletas em um bosque ou em um pequeno jardim bastante florido, assemelha-se ao movimento browniano1 de partículas suspensas, como bem notou o coletor botânico Robert Brown (1773-1858) por volta de 1827. Humanos por sua vez repetem movimentos semelhantes em suas jornadas existenciais. O conjunto de indivíduos isolados em si mesmos, que juntos, mas não unidos, promovem a dança da evolução, talvez não se deem conta dessa simples complexidade, mas ao observar e assimilar as aparências, podemos usá-las para outras reflexões.

A sociedade culturalizada cristã, ou em ramificações cristãs, acredita-se benevolente, filantrópica e altruísta, e conserva o discurso aos descendentes através de todas as instituições sociais: família, igreja, política e escola, talvez sem mesmo perceber os próprios atos tão contraditórios praticados na atual conjuntura materialista, consumista e competitiva dessa que se transformou numa luta pela sobrevivência. Não mais vida2. Algumas borboletas conseguem explorar os horizontes com leveza e energia, algumas encontram-se enclausuradas em seus casulos, ainda crisálidas, sofrendo a metamorfose. E não há outra maneira, cedo ou tarde, todas as unidades em algum momento desse existir, passarão por metamorfoses. E assim, como o voo das borboletas e como no movimento browniano, a deshumanidade avança. A complexidade da coexistência social compulsória pode passar despercebida, mas é essa movimentação aleatória e casual que provoca ao indivíduo sua evolução pessoal na escala existencial. Essa evolução pessoal vai tomado aspecto individualista desde que as condições materiais, tecnológicas e econômicas vem permitindo que uma parte considerável dessas pessoas tenham uma residência só para elas. Mesmo as famílias, que reduzem cada vez mais em número de indivíduos pertencentes, já acostumam-se a ter espaços exclusivos para a solidão. Casais dormem em quartos separados e cada filho possui seu próprio espaço para desenvolver-se ali individualmente e sem interferências. O advento da internet acessível torna qualquer pessoa apta a leitura e bom entendimento “autossuficiente”, e assim o ato de conversar e até conviver com outras pessoas torna-se lentamente dispensável. E as pessoas “descartáveis”. Crisálidas solitárias; humanos contemplam-se em casulos isolados.

Nó infinito3 ou Teoria das cordas4, todas as coisas estão interligadas. A energia que nos move, as motivações que criamos, toda a força vem desse movimento do todo e de onde somos uma parte; e o movimento que realizamos, unido aos movimentos de outras partes ou indivíduos, constituem a dança coletiva de movimentos aleatórios direcionando e projetando cada um outra vez, sempre e sempre, continua e constantemente. Partes e responsáveis; partes e involuntários. Comportamentos, ideologias, julgamentos, conhecimento. Em parte por responsabilidade ao pertencimento, em parte por compulsão ao pertencimento. Tudo está conectado no espaço formando essa coreografia caótica que conhecemos por Planeta Terra, a bolota azul, um pálido ponto azul5. Coreografia de voo das borboletas, ou de movimento de partículas suspensas, ou de seres humanos “perdidos” nesse espaço sobre o qual ainda não dominamos os mistérios subliminares. Coreografias regidas por força e velocidade, capacidade e tempo, uns mais e outros menos. Talvez esse fluxo de movimentos aleatórios, intensos e incessantes, em uma percepção de realidade social, seja para alguns demasiado desgastante, fazendo assim com que a melhor “solução” ao “problema” seja isolar-se por um tempo para transformar o pensamento, praticar a compreensão e aceitar a exposição das coisas como estão, numa tentativa de se “readaptar” ao fluxo sem perder os pedaços pelo caminho. A lagarta confecciona um casulo e transforma-se em crisálida. É o humano criando sua barreira protetora para transformar-se num conceito próprio de não mais pertencimento, de reclusão voluntária, de tempo para pensar e traçar novas estratégias. Um momento em que se sente protegido até para usar de toda a loucura percebida no externo afim de compreender e direcionar suas próprias confusões. Um momento de metamorfoses transcendentes. E a dança continua...

A Terra rotaciona e as horas passam, levando os dias; a Terra translada e as estações mudam renovando-se em ciclos anuais. Lendas antigas contam de seres que em determinado ponto da vida se escondem em cavernas, altos precipícios, tocas ou ambientes semelhantes, isolados, para passarem por alguma mudança: nas cobras a ecdise (troca de pele) pode acontecer até cinco vezes em um ano. A mudança é necessária para a evolução. Os artrópodes passam por uma mudança de exoesqueleto que pode acontecer várias vezes durante a vida, e algumas aves mudam as penas e o bico anualmente. Estes animais não possuem atividade cerebral semelhante à nossa, eles não escolhem retirar-se por um tempo para passar por mudanças, é um acontecimento puramente biológico, exposto, e onde observamos seus instintos de sobrevivência. As pedras sofrem mudanças devido as variações climáticas e temporais, toda a matéria se transforma. O corpo humano também passa por diversas transformações físicas durante todo o tempo de existência. Nossa mente, nossos pensamentos e a capacidade intelectual nos permitem observar essa evolução toda e questionar o sentido da vida. Por que estamos aqui? Qual o nosso papel diante dessa consciência que temos sobre o Universo? Entendemos que a mudança faz parte dessa experiência e daí desejamos mudar. É quando entramos voluntária ou as vezes involuntariamente na metamorfose mental. A mudança é necessária para a evolução.

Quantas metamorfoses acontecem na mente durante o amadurecimento de um ser humano adulto? Qual é o sentido da vida e por que ainda estamos aqui sem esse entendimento? Será que os filósofos, adoradores do saber, que dedicam suas vidas aos questionamentos acerca das existências universais, em algum momento se veem diante de uma evidência que lhes amenize a angústia dessa investigação? A solidão contemporânea, o isolamento social, a ilusão de relações puramente virtuais, a velocidade das horas... contribuem para uma aceleração no start das metamorfoses mentais? Há mais borboletas em voo ou mais lagartas se enclausurando? Estamos desequilibrando ou mantendo a junção social que promove a dança coreografada? A Natureza é sábia, talvez por isso a maioria dos filósofos a adorem tanto. É preciso questionar as interferências desse aspecto individualista e solitário da evolução pessoal humana na sociedade; se as distrações proporcionadas pela tecnologia e materialismo estão dissipando o tempo desse momento de metamorfose mental, ou se essas ferramentas podem colaborar para o salto gigantesco6 entre lagarta e borboleta. Como quase tudo o que há conhecido no universo, a evolução constante depende do voo das borboletas para mover as partículas suspensas na dança cósmica de existências e consciências humanas.

É tempo de voar, e superar as crisálidas. Como no voo das borboletas, em que cada indivíduo sendo simplesmente, colabora para a manutenção de um equilíbrio. Ou como no movimento browniano onde as partículas se movem aleatoriamente sem se chocar. Somos partes de um todo que desconhecemos, e tão importante quanto abandonar o tempo de lagarta para se fechar em crisálida, é ter motivação para libertar-se da crisálida e alçar o grande voo.

[1]. Movimento browniano é o deslocamento aleatório de partículas em suspensão num meio fluido sem se chocar. Estudos vieram demonstrar que o movimento browniano resulta dos choques das moléculas do fluido contra as partículas em suspensão.

[2]. “Não mais vida”: nostalgia bucólica; lembrança dos tempos de vida farta, comunidades unidas pela provisão de alimentos, construções e relacionamentos sociais. Expansão das artes e criatividade, quando as crianças brincavam nas ruas e em meio às atividades dos adultos.

[3]. Símbolo budista que representa a origem dependente e a inter-relação de todos os fenômenos e simboliza a relação entre todos os seres no universo . Significa também causa e efeito da união de compaixão e sabedoria.

[4]. Segundo a teoria das cordas, uma molécula de água, por exemplo, conteria prótons e nêutrons que por sua vez conteriam quarks. Dentro deles ficariam as cordas, que formariam partículas diferentes de acordo com sua vibração. Assim, se tudo no universo tiver a mesma composição, as teorias da física poderiam ser unificadas, e compreenderíamos melhor o que hoje é desconhecido. (Revista Galileu)

[5]. Pálido ponto azul (Pale Blue Dot): fotografia feita pela sonda Voyager 1, popularizada por Carl Sagan e que se tornou símbolo da astronomia.

[6]. Referência ao “Corpus Hermeticum” de Hermes Trismegisto: “Mediante um salto que supere todos os corpos, adquire a condição do que é imenso. Supera todos os tempos, converte-te na própria eternidade!".

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