A insanidade por trás da crise

Os desvios da racionalidade administrativa são evidentes na política nacional. A festa de "réveillon" no Rio de Janeiro é um bom exemplo disto, especialmente se considerarmos a gravidade da crise econômica nos Estados e no Brasil

Tanto no campo pessoal como na administração de empresas há um substrato cultural capaz de fazer parecer natural o que não passa de uma insanidade. Isto afeta especialmente a administração pública, porque esta amiúde sucumbe aos apelos populares, ao populismo. A seguir apresento exemplos concretos bem atuais.

No Brasil, comemorou-se o fim de 2015 ou a festa foi apenas uma distração para não encarar a crise que transbordou para 2016?

Em toda a cidade do Rio de janeiro, a população estourou foguetes. Não foi apenas em Copacabana.

Cada "Sputinikão Super Star" (2 unidades) custa R$ 40,00. Quando você estoura um deles, explode R$ 20,00! Uma caixa com duas unidades de "foguete 12" custa R$ 25,00. Quando você as estoura, explode R$ 50,00! Qual a quantia de dinheiro, em reais, que a cidade explodiu no Réveillon? Alguém imagina? Alguém já fez as contas?

Só os fogos de artifício lançados das 11 balsas do Réveillon de Copacabana gastaram 24 toneladas de fogos e 34 mil bombas para proporcionar os 16 minutos de espetáculo. De onde vieram os recursos para isso? Alguém sabe? Qual a parcela que foi gasta pelo poder público? Cadê a transparência dos gastos públicos?

A Praia de Copacabana ficou tomada pelo lixo depois da festa de Réveillon. Após uma manhã inteira de trabalhos, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) recolheu 694 toneladas de lixo. Apenas na orla de Copacabana, na zona sul, foram removidas 364 toneladas, por 1165 garis e 120 profissionais de limpeza. Apesar dos 1455 contêineres instalados, houve muito trabalho para o recolhimento de garrafas, embalagens e outros itens. Para o apoio, foram disponibilizados ainda 247 veículos e equipamentos como caminhões, pás mecânicas, caminhões-pipa, varredeiras, sopradores, entre outros.

Alguma instituição já fez um estudo econômico realmente sério sobre esta festa avassaladora de comemoração? Vale a pena? Quem ganha e quem perde?

No caso desta desta passagem de ano (de 2015 a 2016), quantos dólares os turistas deixaram aqui? Estes dólares ficaram com quem? Com o poder público? Em que serão investidos?

Agora vem o Carnaval! Depois as Olimpíadas. Enquanto isso, o Rio agoniza, carregadinho de problemas, especialmente na área da saúde.

A crise nas finanças do Estado do Rio de Janeiro, que também atinge todos os demais Estados da Federação, chegou ao ponto de instituir um novo e cruel critério de atendimento na maioria das Unidades de Pronto Atendimento (UPA's) do Estado: só é atendido quem estiver à beira da morte. Há cerca de duas semanas, 17 de 29 unidades de emergência, administradas pelo Estado, pararam de atender casos de saúde pública que não sejam considerados extremamente graves. O colapso também chegou a, pelo menos, 12 hospitais que bloquearam as portas com tapumes, reduziram os leitos em 50% ou restringiram o atendimento de emergência a casos gravíssimos.

O que estamos fazendo com o nosso país?

Parece que festejamos o próprio estado de nonsense.

Esta insânia não é exclusiva do Rio de Janeiro. O Brasil inteiro agoniza e fecha os olhos à crise. Cada cidadão tem o dever de estar atento a irracionalidades como essas.

Publicado originalmente no blog do autor

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