A Hermenêutica e a compreensão do mundo

<i>“A hermenêutica é a arte de compreender, de interpretar, de traduzir de maneira clara signos inicialmente obscuros. A primeira função da hermenêutica foi entregar aos profanos o sentido de um oráculo. A hermenêutica progressivamente penetrou no domínio das ciências humanas e da filosofia.”</i><br />

A filosofia é o tempo capturado no pensamento
(Friederich Hegel)


A questão da compreensão é atividade central da hermenêutica. Para facilitar o presente ensaio, como necessidade de uma mente leiga, aprendiz, levemente objetiva mas com ganas de libertar-se de suas amarras -, fui obrigado a recorrer a um dicionário de termos filosóficos (
Précis de philosophie, 1998, on-line):

A hermenêutica é a arte de compreender, de interpretar, de traduzir de maneira clara signos inicialmente obscuros. A primeira função da hermenêutica foi entregar aos profanos o sentido de um oráculo. A hermenêutica progressivamente penetrou no domínio das ciências humanas e da filosofia.

Ok, visto o conceito, vamos começar a partir de uma simples pergunta: o que é compreender?

Dois filósofos alemães, Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer, em especial, contribuíram imensamente para a compreensão do ato de compreender.

A atividade da compreensão é complexa. Heidegger enxerga a compreensão como a forma originária do ser-aí humano enquanto ser-no-mundo. Não se trata apenas de um ideal de conhecimento ou simples ideal de método da filosofia. O compreender é o modo de ser do ser-aí que o constitui como saber-ser e possibilidade. A compreensão torna-se, a partir de Heidegger, um movimento de transcendência.

Revelar o milagre da compreensão é a razão da investigação hermenêutica. Vamos colocar da seguinte maneira: compreender é o participar de uma perspectiva comum.

Gadamer nos adverte que aquele que procura compreender está exposto a erros de opiniões prévias. Toda a nossa bagagem intelectual, valores e opiniões prévias podem nos afastar do fenômeno da compreensão. Ao tomar um texto, por exemplo, o intérprete deveria se desfazer de suas opiniões prévias e de seus próprios hábitos lingüísticos e examinar o texto a partir dos hábitos lingüísticos e dos valores do seu autor. Trata-se de uma tarefa difícil, pois o caráter inconsciente de nossos próprios hábitos lingüísticos se opõe a isso.

A saída, então, não é esquecer de todas as opiniões prévias e nossas próprias opiniões sobre um determinado assunto. Trata-se de manter-se aberto à opinião do outro. Quem quer compreender um texto (ou um discurso, ou uma idéia, ou seja lá o que for) deve estar disposto a deixar que o texto diga alguma coisa por si.

Gadamer vai mais além nessa questão da compreensão: aquele que quer compreender não pode se entregar (...) à casualidade de suas próprias opiniões prévias e ignorar o mais obstinada e conseqüentemente possível a opinião do texto até que este, finalmente já não possa ser ouvido e perca sua suposta compreensão. A consciente formada hermeneuticamente deve receptiva para a alteridade (do Latim alteritate) , diferença, diversidadedo texto.

Logicamente, a receptividade não pressupõe neutralidade ou auto-anulamento de nossas opiniões prévias. Nós carregamos nossa bagagem por onde quer que seja. Porém, o que é recomendado é que é preciso se dar conta dessas nossas antecipações, para que o texto possa se apresentar em sua diversidade e que daí possa surgir o confronto de suas verdades com as nossas próprias opiniões prévias.

Essa visão é levada a cabo em todo o processo de construção do pensamento hermenêutico, inclusive quando se trata de compreender a história: (...) se nos deslocamos, por exemplo, à situação de um outro homem, então vamos compreendê-lo, isto é, tornar-nos-emos conscientes de sua alteridade, e até de sua individualidade irredutível, precisamente por nos deslocarmos à sua situação (grifo meu). Trata-se de uma ascensão a uma universalidade superior, que rebaixa tanto a particularidade própria como a do outro (GADAMER, 1998).

Por que não vemos isso na escola? A compreensão é uma dimensão essencial da existência humana, mas quão realmente compreendemos a compreensão? A questão passa batido em nossa formação familiar, escolar e, até mesmo acadêmica. Ficamos sujeitos apenas a um senso comum baseado no racionalismo, e o senso comum é cego para aquilo que ele coloca diante do olhar essencial (HEIDEGGER, 1995). Ora, o objetivismo é uma ilusão. Não seria a nossa existência menos completa ou até mesmo vazia quando permanecemos apenas no raso, sem explorar a profundidade de nossa própria existência?

Detesto ter que terminar um ensaio com uma pergunta, mas essa atividade a de perguntar sempre nos permite ver as possibilidades que ficam em suspenso. Se quisermos pensar, temos que perguntar. Eis, portanto:

Quem nos aprisiona?




Bibliografia

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 1998.
GADAMER, Hans-Georg; FRUCHON, Pierre (orgs.) O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
HEIDEGGER, Martin. Sobre a essência da verdade. Porto: Porto Editora, 1995.
LOPARIC, Zeljko. Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

On-line:

J.-M. BESSE e A. BOISSIÈRE, Précis de philosophie. Paris: Nathan, 1998, p. 52-53 disponível em: < http://ocanto.webcindario.com/hermneut.htm>


Comentários

Participe da comunidade, deixe seu comentário:

Deixe sua opinião!  Clique aqui e faça seu login.
    Leandro Vieira

    Leandro VieiraAdministrador Premium

    Leandro Vieira - CEO e fundador do Administradores.com. É Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, certificado em Empreendedorismo pela Harvard Business School e MBA em Marketing, pelo Instituto Português de Administração e Marketing. Graduou-se em Administração de Empresas pela UFPB e em Direito pelo UNIPÊ. Foi professor da Escola de Administração da UFRGS. Em 2011 recebeu o Prêmio Honra ao Mérito em Administração, e em 2015 o Troféu Jubileu de Ouro, ambos pelo Conselho Federal de Administração como homenagem e agradecimento pelos serviços prestados à profissão.

    café com admMinimizar