A frustração, o Brasil e a violência

De que forma a frustração dos brasileiros pode aumentar a violência?

Ainda em 2013, durante as manifestações de junho, assistimos milhares e até mesmo milhões de pessoas nas ruas, protestando contra tantas coisas, que era difícil elencar o foco da questão. Tampouco havia lideranças bem definidas. Via-se no entanto um povo cansado de tantos desmandos, revoltado com injustiças sociais e ao mesmo tempo questionando o alto investimento na Copa do Mundo, que teve muito dinheiro público envolvido. Pedia-se que a educação e a saúde fossem contempladas com o mesmo rigor de qualidade exigido pela FIFA.

Passadas as eleições, nada mudou e vemos cada vez mais as pessoas revoltadas. Diminuíram as passeatas, mas a Internet está repleta de vídeos raivosos, com pessoas realmente revoltadas e crescem os casos de autoridades constrangidas em locais públicos.

Sob o ponto de vista da gestão de crises, o governo conseguiu fazer tudo o que não se deve fazer. A crise não foi isolada, não houve contingenciamento e tampouco o gerenciamento. Até porque foi apenas reconhecida tardiamente e ainda assim de forma parcial.

Berkowitz foi um importante pesquisador que em seus estudos afirmou que a frustração leva à violência, sobretudo, quando as pessoas com altas expectativas, percebem que suas demandas não serão atendidas. Com os índices galopantes de impopularidade da Presidente, principalmente os que votaram nela ou que ainda alimentavam alguma esperança de melhorias se veem nessa situação. Se sentiram enganados.

O país está parado. Os escândalos e casos de corrupção aumentam a cada dia. A violência está em níveis absurdos e os indicadores sociais só pioram. A ideia de que o Brasil é uma pátria educadora, como slogan desse governo, soa como deboche. Não há investimentos sérios na educação básica. Toda medida quando anunciada visando melhorias, parece sempre estar travestida de improvisação.

Outro pesquisador importante, Gustave Le Bon, afirmava que as pessoas em grupo agem de forma diferente do que fariam de forma individual. Assim, os movimentos de massa são sempre muito imprevisíveis. Com frequência ocorre um processo, que o psicólogo Zimbardo, chamou de desindividualização. As pessoas buscam o anonimato na forma de se vestir, no apoio de outros manifestantes, no uso de jargões semelhantes e a situação pode ser difícil de ser controlada. Como anônimos, fica mais fácil de se despirem de seus valores éticos e morais e a violência passa a ser um instrumento a ser considerado por essas pessoas e frequentemente, empregado.

As pessoas, sobretudo, com menor poder aquisitivo tem cada vez menos acesso à saúde. Postos de saúde e emergências estão sempre superlotadas. Não há garantia de atendimento continuado. Pessoas estão morrendo por falta de assistência básica. O alto custo dos alimentos com a volta da inflação faz com que a desilusão e o sentimento de frustração sejam cada vez maiores e mais evidentes. As pessoas não entendem porque não podem ter alimentos, porque não podem ter boas escolas, porque não podem consultar com bons profissionais de saúde, enquanto assistem o anúncio do desvio de bilhões de dólares. Nesse descompasso, a que se agir para que o país não caminhe para a desobediência civil e suas trágicas consequências.

O risco de uma escalada de violência por parte de pessoas que se sentem enganadas, que estão frustradas e que não veem esperança, é muito grande. Na teoria do desengajamento moral proposta por Bandura, as pessoas para não passarem por cima de seus princípios éticos e morais, que as impediriam de agir com violência, passam a tentar "desumanizar" aqueles que seriam os responsáveis pela crise. É comum que haja, o que na criminologia, se chama de justificação do crime. Autoridades e pessoas que não pensam da mesma forma que eles, não são enxergadas como pessoas, mas como os culpados por suas frustrações e.... a violência explode. Nenhuma violência contudo, é justificável.

Diante da perspectiva de um impeachment, movimentos que se dizem sociais ou de defesa da terra, prometem colocar o que chamaram de seu "exército" nas ruas para defender apenas o poder pelo poder. Há vários vídeos em que defendem a revolução armada. Invasões de prédios públicos, destruição de propriedades privadas, violência no campo e nas cidades, além de denúncias de associação com criminosos, fazem parte do que está sendo visto com frequência. Defendem até mesmo aqueles que foram presos e condenados pela justiça em processos onde tiveram amplo direito a defesa. Estão cegos pela ideologia.

Chamam a possibilidade de impeachment, de golpe. A democracia requer a liberdade de expressão em todas as suas formas. Também prevê de forma legítima, que mandatários de cargo eletivo possam ser afastados na forma da lei. Falar de impeachment não é golpe. É um instrumento legal que está na Constituição. Se é o caso de ser usado, cabe ao Parlamento decidir. Golpe é tentar impedir ou censurar a aplicação da Constituição do país. Não há dúvidas que é um instrumento extremo, mas o parlamento ao decidir pelo impeachment do presidente Collor, mostrou que possui a maturidade e o conhecimento necessário para usar desse dispositivo quando necessário. Curioso, é que os mesmos que chamam de golpe, a proposta atual de impeachment, são os mesmos que foram às ruas pedir o impedimento do presidente Collor e também do presidente Fernando Henrique.

Não bastasse o sentimento de raiva (frequentemente associado à frustração) por parte de boa parte da população, há ainda a violência do dia-dia, dos assaltos, dos homicídios, do tráfico de drogas, dos crimes sexuais, que parecem não ter fim. Criminosos são presos e poucas horas depois estão soltos. Lembram-se da frustração da população? Ela aparece aqui de novo, através dos linchamentos, dos grupos de populares que querem vigiar os bairros, do apoio às milícias, dentre outros. A violência há muito tempo é banalizada no país.

A ideologia partidária e socialista não pode ser priorizada em detrimento do crescimento do país. A história e os países vizinhos do Brasil mostram bem isso.

A situação do país está crítica e infelizmente pode piorar. O Brasil não está apenas parado, mas descendo a ladeira e... de costas. Nenhum Presidente pode se sentir confortável com cerca de 80% (ou mais) de desaprovação popular. Nesse processo de monitoramento e de gerenciamento de crise, há ainda muitos episódios a serem conhecidos e também muito espaço para frustração. Para o Brasil ser o país do futuro, precisa ter presente.

De um lado temos uma população com índices crescentes de frustração e revoltada com o declínio do país em todos os segmentos sociais, com a volta da inflação e a perda do poder aquisitivo. Do outro lado, temos pessoas que se dispõe a agir com todos os meios, inclusive a violência, para defender os seus governantes e sua ideologia. A agressividade mútua está crescendo. Não há uma proposta de união, mas apenas a perspectiva do embate. Não há vitoriosos quando irmãos se enfrentam. Não há uma proposta de construção para o país.

Não nos esqueçamos das palavras do John Kennedy, ex-presidente americano, que disse que aqueles que fazem da revolução pacífica impossível, tornam a revolução violenta inevitável. O país não precisa de uma revolução, mas da união contra as más práticas da política, contra os crimes de "colarinho branco", contra a corrupção e a favor da aplicação correta de recursos em benefício de sua população. Expressar opiniões faz parte da democracia. A única espada, admissível a ser desembainhada nesse processo é a Constituição.

Marthin Luther King disse que ningém sai das trevas com mais trevas, mas através da luz. Ninguém vence o ódio, senão com o amor. Parafraseando, podemos dizer que a frustração não é vencida com mentiras e omissões, mas com a verdade e a transparência. Na medida em que os governantes passem a assumir o seu compromisso pela defesa do país, de forma honesta e verdadeira, a frustração dá lugar à esperança.

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