A febre das pirâmides financeiras assola o país

Esquemas fraudulentos e pessoas desavisadas são as mais propensas a cair em golpes financeiros

Nunca se viu na história do país tantos esquemas ilegais para “ganhar dinheiro fácil ou através de investimentos” como neste ano de 2019. Neste mesmo momento em que estou escrevendo este artigo, possivelmente, há mais uma empresa sendo criada para tentar arrancar dinheiro do bolso de pessoas desavisadas ou até cientes do risco mas que mesmo assim ainda preferem investir e até convidar outras pessoas para participarem de esquemas de pirâmides financeiras que, por sinal, vem se sofisticando cada vez mais principalmente no oferecimento de investimentos cujos retornos ultrapassam mais de 50% ao mês.

Com a alta de quase 1.000% do Bitcoin em 2017 pegaram carona nesta onda centenas de golpes a partir dos investimentos em criptomoedas, que são as moedas digitais além do Bitcoin, sendo que muitos destes já foram descobertos pela Polícia Federal e pelos órgãos reguladores do mercado financeiro, como a CVM sendo que outros estão sendo investigados.

Porém, esse modelo de negócios já vem de longa data como a suposta promessa de engorda de bois nas famosas Fazendas Reunidas Boi Gordo em meados de 1996, passando por rastreados para automóveis como a BBOM que se quer foram entregues a seus usuários chegando até a planos de minutos de telefonia de voz sobre protocolo de internet (VoIP) através de empresas como a Telexfree.

Uma pirâmide financeira ou esquema Ponzi tem como premissa prometer retornos insustentáveis sobre os investimentos pagando investidores antigos com dinheiro investido por novos investidores. Em muitas situações como nos exemplos acima bois, rastreadores, telefones VoIPs e agora investimentos em criptoativos com auxílio de robôs são utilizados para dar uma aparência legal ao negócio, mas que muitas vezes nem importa que produto ou serviço está sendo “comercializado”, mas sim que seja suficientemente atrativo para despertar o interesse dos investidores.

No caso das pirâmides financeiras com criptoativos a velocidade de propagação é infinitamente mais rápida em virtude de que não há a necessidade de se comercializar nada físico mas sim basta investir o dinheiro em uma plataforma própria do esquema ou preencher um contrato que o seu dinheiro “será investido” a taxas de juros acima do que o mercado financeiro oferece atualmente ultrapassando a razoabilidade dos 6,5% ao ano (taxa básica de juros atual), por exemplo, oferecendo retornos acima de 50% ao mês.

Na Economia Comportamental podemos descrever esta irracionalidade dos investidores em uma sigla em inglês que é FOMO (Fear Of Missing Out) que significa medo de ficar de fora. Esta interessante definição foi citada recentemente por um dos maiores gurus das finanças comportamentais, Dan Ariely, que é especialista, autor de livros e artigos científicos sobre o tema.

No caso dos investimentos em criptomoedas através de supostas pirâmides financeiras que atuam no mercado a sensação de que você está de fora é quase como algo inevitável pois num país onde o investimento no mercado financeiro já não se aproxima mais do tal 1% de juros ao mês, uma rentabilidade acima de 50% mensal acaba por cegar a maioria das pessoas levando-as a se arriscarem desnecessariamente sem exatamente saber onde estão pisando. Para isso segue alguns importantes alertas abaixo para evitar cair em armadilhas:

1- Sempre desconfie de propostas com retornos acima do que o mercado financeiro oferece sejam elas aplicações financeiras propriamente ditas ou investimentos em criptoativos que poderão ser plataformas HYIP (High-Yeld Investiment Program) que nada mais são que Programas de Investimento de Alto Rendimento fraudulentos que prometem retornos insustentáveis.

2- Cuidado com discursos na internet que orientam você a diversificar seus investimentos em várias empresas ou em outras novas que surgem a cada dia, a não ser que você esteja disposto, a perder parte ou todo o dinheiro investido caso o negócio acabe;

3- Saiba que a plataforma que investe seu dinheiro em criptoativos pode ser uma pirâmide financeira e que pode ser fechada a qualquer momento, conhecido tecnicamente como SCAM, dificultando ou até impossibilitando de fazer resgates dos rendimentos prometidos ou até dos valores investidos;

4- Investimentos em criptomoedas não contam com nenhum tipo de proteção seja por parte do Banco Central ou do Fundo Garantidor de Créditos (FGC);

5- Jamais faça empréstimos com bancos ou parentes, retire seu dinheiro de uma reserva financeira ou venda bens para entrar neste tipo de negócio por mais vantajoso que pareça ser;

6- Desconfie sempre de rendimentos garantidos até porque não é possível prometer rendimentos fixos num mercado de renda variável. Se for o mercado de criptoativos este é ainda mais volátil portanto de alto risco;

7- Não há garantia nenhuma de que os recursos que aplicou estão sendo investidos naquilo que realmente foi combinado já que as empresas/instituições não são autorizadas pelo Banco Central e fiscalizadas pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários);

8- Para saber mais se não está participando de um programa fraudulento pesquise através do site badbitcoin.org ou investors-protect.com e também acesse a lista do ranking das pirâmides financeiras no site: sucessonetwork.com.br/lista-oficial-das-piramides-de-julho-black-list

Por fim é importante lembrar que pirâmide financeira é crime e está descrita na Lei 1.521/51 que dispõe sobre crimes contra a economia popular. Em seu artigo 2º, inciso IX, a norma prevê o chamado crime de “pirâmide” ou “esquema de pirâmide” que consiste em tentar ou obter ganhos ilícitos, através de especulações ou processos fraudulentos, causando prejuízo a diversas pessoas sendo que a pena prevista é de 6 meses a 2 anos de detenção e multa.