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À espera do efeito dominó

Guerra, geopolítica e geoeconomia sempre estiveram relacionadas. Os especialistas dos ciclos longos estudam os últimos 150 anos para entender tendências e sinais a observar nas próximas duas décadas. Podendo a «zona de perigo» estar mais próxima (nesta década), ou mais distante (depois de 2020), uma coisa é certa: o mundo voltou a um período de grande turbulência em que a violência como continuação natural da diplomacia se está a revalorizar.

Guerra, geopolítica e geoeconomia sempre estiveram relacionadas. Os especialistas dos ciclos longos estudam os últimos 150 anos para entender tendências e sinais a observar nas próximas duas décadas. Podendo a «zona de perigo» estar mais próxima (nesta década), ou mais distante (depois de 2020), uma coisa é certa: o mundo voltou a um período de grande turbulência em que a violência como continuação natural da diplomacia se está a revalorizar.

Uma investigação do austríaco Arno Tausch para o Centro Argentino de Estudios Internacionales, um «think tank» de Buenos Aires, encontra correlações entre os ciclos longos de Kondratieff e as guerras entre grandes potências. Tausch não faz prognósticos, mas chama a atenção para a leitura dos sinais e das tendências.


Até 2040, quando se antevê que a China alcance o lugar cimeiro do PIB mundial, os especialistas dos ciclos longos dividem-se, acaloradamente, entre dois períodos de alto perigo um mais próximo, outro daqui a duas décadas onde poderão ocorrer confrontações globais no plano geopolítico. Duas ideias parecem obter consenso hoje nesta comunidade de analistas: a queda do Muro de Berlim não selou o fim da rivalidade geopolítica que sempre moveu a História; é, também, enganadora a afirmação de que, após o 11 de Setembro de 2001, apenas as ameaças assimétricas, derivadas da fase de difusão do terrorismo internacional, são relevantes.

O mundo continua a ter «horror» à solidão de uma única superpotência, confirma Arno Tausch, 55 anos, professor de Ciências Políticas na Universidade de Innsbruck, na Áustria. A sua investigação para o Centro Argentino de Estudios Internacionales, de Buenos Aires, sobre a inconsistência da metáfora do fim da história e sobre as correlações entre as guerras entre grandes potências e os ciclos longos económicos acabou de ser lançado em «e-book».

O trabalho deste conselheiro ministerial em assuntos internacionais e europeus do governo austríaco vem na sequência de um «estado da arte» no tema feito por uma colectânea publicada em Março passado (Kondratieff waves, warfare and world security), com base na Conferência realizada em Lisboa pela NATO e pela Fundação Gulbenkian em Fevereiro do ano passado.

A investigação de Tausch revela que as grandes guerras de impacto global, desde a Revolução Francesa, aninharam-se, em regra, no período ascendente de um novo ciclo longo económico (baptizado pelo economista Schumpeter como «ciclo de Kondratieff»), no meio de prosperidade económica e antes de grandes «crashes» que ocorreriam nas décadas seguintes. Sucedeu, assim, com as Guerras Napoléonicas entre 1799 e 1815, quando Napoleão desafiou a hegemonia britânica sem sucesso, ou, mais tarde, com a Iª Guerra Mundial, fruto da emergência da Alemanha desde a proclamação do Império por Bismark em 1871 até à doutrina da Weltpolitik (política mundial) do «Kaiser» Guilherme II em 1890 e à descoberta atónita pelos outros europeus do «Made in Germany», mediatizado por um «best-seller» publicado em 1896. A primeira fase da afirmação geo-estratégica da Alemanha fez-se ao longo de mais de quarenta anos, aproveitando a janela de oportunidade aberta pelo começo da delegitamação da hegemonia britânica desde meados do século XIX. A excepção, em mais de 200 anos, foi a IIª Guerra Mundial, que ocorreu após um «crash» (1929) e no decurso de uma longa depressão, com a segunda tentativa alemã de disputa da hegemonia mundial.

Coexistência custou 3 milhões

Um IIIª Guerra Mundial, de novo no decurso do período ascendente do ciclo longo, não se concretizou em virtude do «equilíbrio bipolar de terror» entre as duas superpotências ao longo de 30 anos e devido à implosão de um dos pólos com a «Perestroika». No entanto, até ao pico do ciclo longo nos anos 1980, várias guerras regionais, com envolvimento de alianças antagónicas, tiveram impacto global e fizeram mais de 3 milhões de vítimas, segundo o levantamento feito por Tausch. Mesmo os famosos «trinta gloriosos anos» de crescimento económico e de «coexistência pacífica» desde o final da IIª Guerra Mundial até aos choques petrolíferos de 1973 e 1981 foram tudo menos «calmos» na geopolítica.

O especialista austríaco acha que uma situação como a que ocorreu nos anos 1930 e 1940 não vai repetir-se agora, pesar da enorme turbulência que se sucedeu à queda do Muro de Berlim. Revendo os factos: tentativa de várias potências regionais (como o Iraque ou a Sérvia nos anos 1990) afirmarem o seu espaço geopolítico; renascimento do terrorismo internacional (com a declaração de guerra da Al-Qaida em 1996 e o disparo do número de actos terroristas), «crash» significativo (2000) e manutenção de um período prolongado de depressão desde o final da recessão de 2001; ataque «assimétrico» em Nova Iorque em Setembro de 2001; descoberta nos media da emergência da China como grande potência (após o famoso relatório da Goldman Sachs, de 2003, sobre os «bric»); novo choque petrolífero (com preços do barril acima dos 50 dólares desde o segundo semestre de 2005) e as diversas tentativas regionais de afirmação de potências «fora do baralho» (por exemplo: Irão, Coreia do Norte, Venezuela).

Desafiador na sombra

Apesar do «período de delegitamação da hegemonia em solidão dos Estados Unidos ter começado, paradoxalmente, logo após a queda do Muro de Berlim, o ciclo de afirmação dos desafiadores ainda está no adro», comenta Tausch, baseado nos estudos feitos pelo professor George Modelski. Não obstante, o ciclo de reemergência chinesa se ter iniciado em 1978 com as reformas de Deng Xiaoping e de, desde 2002, a estratégia da China para o petróleo no século XXI estar em concretização acelerada no terreno, os analistas não referem, ainda, este país como um «clone» de Napoleão ou da Alemanha. O exemplo a seguir pode ser o dos próprios Estados Unidos que se mantiveram como «desafiador» na sombra desde o final da sua Guerra Civil (1865) até à Guerra Hispano-Americana de 1898, em que, pela primeira vez, se viraram para o posicionamento externo (Cuba e Filipinas).

Pelo que Tausch «chuta» a próxima «zona de alto perigo» para a década que se inicia em 2020, de acordo com os trabalhos de investigação do professor Joshua Goldstein, da Universidade de Brown. No entanto, pede «atenção aos sinais do dia-a-dia»: a crise iraniana poderá desencadear um efeito dominó às portas da Europa, na Ásia (onde há vários casos pendentes) e na América Latina, adverte. O impacto na Turquia e no futuro da NATO preocupam, em particular, o especialista. O xadrez mundial pode mudar rapidamente, como «ocorreu com as crises do Suez e da Hungria em 1956», recorda.

Os mais pessimistas crêem, no entanto, que o que ocorreu nos anos 1930 e 1940 do século passado poderá repetir-se ainda nesta década. A imagem que é dada é a de um Inverno de Kondratieff. A doutrina norte-americana definida em 2001 pela Administração Bush do regresso ao recurso ao ataque pre-entivo (preemptive attack) e do uso possível de armas nucleares no teatro de guerra (Nuclear Posture Review) seriam os sinais deste novo contexto. Algumas faíscas regionais poderão despoletar novas alianças geopolíticas globais e, por efeito dominó, uma nova guerra mundial. Nial Ferguson, um professor de Harvard, brindou os media no início do ano com o prognóstico de uma grande guerra entre 2007 e 2011, que começaria por uma troca nuclear entre Israel e Irão.


ANEXO

Datas relevantes

Ciclo de 1844 a 1896

Fase ascendente:

1845: Take-off das patentes (EUA); máquina de costura

1848: Revoluções europeias

1861-65: Guerra Civil Americana

Zona de planalto

Boom do imperialismo

1871: Proclamação do Império alemão (Bismark)

1873: crash

Fase descendente

1876: telefone (Bell)

1886: automóvel (Daimler)

1890: Weltpolitik (Kaiser Guilherme II)

1896: Made in Germany


Ciclo de 1896 a 1949

Fase ascendente

1898: Guerra Hispano-Americana

1905: Doutrina alemã do ataque pre-entivo (Graf von Schlieffen)

1905-17: Revolução Russa

1911: Taylorismo

1914-1918: Iª Guerra Mundial

1916: Pico de entrega de patentes nos EUA (por milhão de habitantes)



Zona de Planalto:

Boom dos anos 20

1929: Crash

Fase descendente: (Inverno de Kondratieff)

1930: inicio da Grande Depressão

1933: Hitler chanceler

1936: Computação (Alan Turing)

1939-45: IIª Guerra Mundial

1941: EUA entram na Guerra

1947: Transístor


Ciclo de 1949 a 1980

Fase ascendente

1950-53: Guerra da Coreia

1954: Doutrina do Management

1956: Crise do Suez e da Hungria

1961: 1º acto de pirataria aérea

1965-1975: Guerra do Vietname

1973: 1º choque petrolífero

1975: 1º computador pessoal (Altair 8800)

1978: Reformas na China

1981: 2º Choque petrolífero


Zona de planalto: Boom (1982-2000)

1989: Muro de Berlim

1990: World Wide Web

1990/1: 1ª Guerra do Golfo

1994: Guerras dos Balcãs

1996: Declaração de Guerra da Al-Qaida; início da fase de difusão do terrorismo internacional

2000: crash

Fase descendente

2001: Recessão (EUA); Ataque às Torres Gémeas; Intervenção no Afeganistão; doutrina nuclear dos EUA

2002: Estratégia da China para o petróleo

2003: 2ª Guerra do Golfo; Goldman Sachs lança «BRICs»

2005: Barril a $50

2006: Crise do Irão


½ Ciclo de 2010 a 2040 Fase ascendente

2005-2010: 1ª Zona de Alto Perigo

2015: China maior mercado consumidor do mundo

2020-2030: 2ª Zona de Alto Perigo

2040: China nº1 no PIB




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