A empresa cidadã contribui com a cidadania?

Por que muitas organizações tentam associar valores morais aos seus clientes e empregados?

A palavra ética – “etho”, em grego – corresponde ao caráter e a personalidade do indivíduo em seu ciclo de vida. Ela proporciona a reunião dos valores morais e os princípios que norteiam a conduta do ser humano em uma sociedade. Segundo autores, a ética se refere à teoria ou ao sistema que descreve o que é o bem e, em extensão, o que é mal.

Vivemos em um mundo globalizado, caracterizado pelo sistema capitalista e pelo ato individualista em prol do melhor. E, no decorrer dessa disputa, a ética profissional tem tido a atenção das organizações.

Tanto assim que várias empresas brasileiras vêm divulgando um discurso – politicamente correto – de “amor ao próximo”. Isto é, essas organizações estão tentando estabelecer o credo ao cliente, aos empregados e aos seus próprios acionistas.

Muitas dessas corporações divulgam uma imagem de grande preocupação com seus consumidores, tentando colocá-los como o centro de suas atenções e procurando vender uma imagem de respeito ao cliente, como sendo um valor moral da organização.
Algumas vão mais longe ainda e tentam passar a imagem de responsabilidade social, afirmando que seus clientes, seus empregados e acionistas são tratados como a verdadeira “Santíssima Trindade”. Diante disso podemos apontar duas (2) atitudes que se destacam como possíveis neste cenário:

• A ética do interesse próprio
• A ética orientada para o outro.

A ética do interesse próprio proporciona algo ao outro, porque é do interesse fazê-lo. Esta perspectiva – defendida pelo filósofo Thomas Hobbes – tem repercussões no âmbito empresarial, principalmente nas posições de Milton Friedman, da escola do capitalismo e do laissez-faire, ou, mais atualmente, do liberalismo e do neoliberalismo.

Conforme seus seguidores, a responsabilidade social da empresa consiste única e exclusivamente em aumentar o seu lucro e maximizar os seus retornos. Logo, tudo o que se faz na empresa e nos negócios tem por objetivo o cumprimento desta responsabilidade.

A preocupação com os empregados, com a qualidade, com o bem estar da comunidade justifica-se apenas se a ação resulta na maximização dos resultados econômicos da empresa ou do negócio.

Como limites éticos da ação neste contexto, os defensores da teoria do interesse próprio admitem apenas que tudo tem de ser praticado dentro da lei. Nesta perspectiva, a lei resulta de um contrato que os indivíduos agrupados em comunidades ou sociedades fazem entre si, abandonando parte de suas liberdades para obter segurança.

Trata-se de uma ética onda a vantagem econômica é o valor mais importante, visando fundamentalmente à sobrevivência. Já a ética orientada para os outros tem por objetivo básico a valorização do outro para o benefício do todo. Parte do princípio de que é fazendo o outro feliz que eu vou me realizar, que eu vou me sentir feliz. É na medida em que os outros crescem que o grupo todo – ao qual também pertenço – vai crescer.

Os outros não são mais simples instrumentos de minha realização; a minha realização depende da realização da comunidade, da genuína realização de cada um dos outros. Em termos empresariais, isto significaria uma filosofia – ou uma ética do serviço.

Diante do exposto, cabe-nos alertar as organizações que o cliente não é apenas “o próximo”, pois ele pode pagar pelo que consome. Dessa forma, o “respeito ao cliente” – tão divulgado por muitas empresas – não pode ser um valor moral de uma organização. Pois, se a ação empresarial busca o lucro por que meter a moral no meio?

O acionista, o empregado e o cliente não são as três (3) pessoas da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), pois o respeito ao próximo – tão alardeado por muitas corporações – não pode ser um valor moral empresarial porque é contaminado pelo interesse restrito da empresa.

Na verdade os valores morais devem ser universais e desinteressados e, por esse motivo, a Ética Empresarial só pode ser – por definição – universal; isto é, não pode ser particularizada.

As empresas não estão a serviço de seus empregados ou clientes, mas sim a serviço dos seus acionistas. Portanto, pode-se afirmar que a Empresa Cidadã não contribui com a cidadania, pois isso é apenas uma boa estratégia de marketing.

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    Julio Santos

    Julio Santos

    Professor, Consultor e Palestrante. Articulista de Vários Jornais no RJ, autor dos seguintes livros: “Promoção e Merchandising Eficientes Para Pequenas Empresas” (Ed. Aprenda Fácil), “Qualidade no Atendimento ao Cliente” (Ed. Clube de Autores), “Estratégia: o Jogo Nas Empresas” (AGBook Editora), “Vendedor Profissional” (Ed. Aprenda Fácil) e Co-Autor de "Trabalho e Vida Pessoal - 50 Contos Selecionados" (Ed. Qualytimark, Rio de Janeiro, 2001).

    Por mais de 20 anos treinou equipes de Atendentes, Supervisores e Gerentes de Vendas, Marketing e Administração em empresas multinacionais de bens de consumo e de serviços.

    Elaborou o curso de "Gestão Empresarial" e atualmente ministra palestras e treinamentos "In Company" nas áreas de Marketing, Administração, Técnicas de Atendimento ao Cliente, Secretariado e Recursos Humanos.

    Graduado em Administração de Empresas, Especialista em Marketing e Gestão Empresarial, com MBA em Marketing no Mercado Globalizado e Complementação Pedagógica.

    Contatos: jcss_sc@yahoo.com.br / profigestao@yahoo.com.br
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