A (des)união feminina

A desunião feminina é um mito que precisa ser combatido.

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Eu andava rapidamente pelo centro da cidade, preocupada com demandas da vida prática (banco, farmácia, etc.) quando olhei para o lado e vi Ana através da vitrine. Ela estava dentro de uma loja fazendo compras. Resolvi, então, terminar meus afazeres e voltar ali para ver se ela ainda estava lá e, com sorte, disponível para um café e alguns minutos de conversa.

Entramos nas vidas uma da outra há pouco mais de um ano. Já nos conhecíamos, mas tudo se resumia a simpatia e cordialidade até que, um dia, precisei como nunca de alguém que me apoiasse. Estava eu vivendo uma situação extrema: precisava, por um senso de dever, realizar o trabalho que outra pessoa havia negligenciado por vários meses. Para isso, teria de abrir mão de estar em família, de dar a devida atenção a filhos e marido, de dar atenção a mim mesma inclusive. Precisava fazê-lo em apenas três semanas. Eu me sentia sozinha, injustiçada e, ao mesmo tempo, culpada.

Foi aí que decidi ligar para Ana, pois já tinha percebido que ela também vivia a angústia de ter de lidar com excesso de trabalho, planejamento de carreira, filhos, família, e mais, uma grande vontade de aproveitar a vida. Liguei e expus minha situação e a decisão que havia tomado. Fui acolhida com objetividade e leveza: “se tua decisão está tomada, vamos pensar em como mudar tua rotina para conseguires realizar este trabalho”. Nossa conversa me fez muito bem, e já tive algumas oportunidades de agradecê-la por isso e por tudo de bom que compartilhamos desde então: conversas; emoções; brincos; filmes; compras; doces e abraços.

Justifico este relato porque, há bastante tempo, venho me propondo a refletir e escrever sobre o mito (a meu ver) da DESUNIÃO FEMININA. Está no senso comum a ideia de que as mulheres apesar de estarem sempre juntas, não são unidas, competindo por todo tipo de coisas: do corte de cabelo às viagens, da maquiagem ao peso, da roupa ao namorado/marido, tudo seria motivo para inveja, mesquinharia e sabotagem. Claro que esse pensamento não é recente. Vale lembrar que, desde bem pequenas, as crianças ouvem histórias em que meias irmãs são capazes de qualquer coisa na tentativa de ganhar o príncipe, histórias em que a madrasta, com inveja da beleza da enteada, tenta matá-la. Para além da tradição dos contos de fadas, de muitas maneiras a mulher é apresentada como alguém que não merece a confiança de outra mulher.

E é preocupante constatar o quanto essa ideia é repetida e reforçada atualmente. Pesquisando sobre o tema, encontrei, para minha total repulsa, blogs direcionados ao público masculino (me recuso a indicar a fonte!) em que se defende que esse é o ponto frágil das mulheres, do qual homens espertos devem saber tirar proveito. Esse estereótipo aparece constantemente na mídia, em novelas, na publicidade, e não raro nos discursos das mulheres também.

Eu nunca concordei com isso. Penso que as mulheres podem e devem ser solidárias umas com as outras e se entregarem plenamente à amizade, podem e devem se unir. É o que muitas vêm fazendo. Em diferentes regiões do país e do mundo, por motivos diversos, mulheres têm cultivado a união e a solidariedade recíproca. A isso se tem dado o nome de SORORIDADE, que é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e no companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum (http://www.significados.com.br/sororidade/). Vamos a alguns exemplos:

Recentemente, surgiu em Porto Alegre um movimento chamado Vamos Juntas!, em que se propõe que mulheres se unam para tentar escapar de situações de risco nas ruas, criando uma rede de proteção mútua contra o assédio e a violência. Na prática, mulheres publicam, no perfil do movimento no Facebook, onde e quando pretendem sair; outras visualizam e combinam de irem juntas. Essa é uma iniciativa bem sucedida, pois essa prática já vem se estendendo a outras cidades do Brasil.

Para além da violência, muitas têm sido as ações de mulheres para promover a UNIÃO entre elas. Por todo o país, mulheres se organizam em cooperativas para potencializar o poder de negociação e as vendas de seus produtos. Outro exemplo é a criação de uma produtora de filmes por atrizes norte-americanas, chamada “We do it together!” (Nós fazemos juntas!). A ideia é contribuir, através da produtora, para que o real universo feminino, com menos estereótipos, ganhe espaço em Hollywood (http://www.cafecomfilme.com.br/noticias/atrizes-criam-produtora-feminista-em-hollywood).

Já no âmbito do EMPREENDEDORISMO, as brasileiras têm sido promissoras, tanto que cada vez mais se vem usando a expressão empreendedorismo feminino, que alia os conhecimentos da área às questões típicas da mulher contemporânea. Cito como exemplos os casos dos blogs Empreendedorismo Rosa (http://empreendedorismorosa.com.br/) e Rede Mulher Empreendedora (http://redemulherempreendedora.com.br/), que merecem ser visitados. Também nós, do blog Mulheres Empreendedoras do Sul, nos encaixamos aqui, ainda no início de uma trajetória que, esperamos e confiamos, será longa e promissora!

A leitora ou o leitor, porém, pode estar se questionando (ou me questionando) sobre tudo o que expus, argumentando que propostas como estas não garantem que as mulheres sejam de fato amigas umas das outras. Em primeiro lugar, respondo dizendo que só a existência dessas iniciativas já mostra que a união faz parte do cenário feminino atual. Além disso, de encontros desse tipo, e entre mulheres conscientes da necessidade de união certamente surgem fortes elos de amizades. É o que propomos aqui no blog!

Então eu quero finalizar esse texto voltando à situação de poucos dias atrás, quando encontrei Ana na loja. Nós saímos dali e fomos tomar um café, como eu previa. Ela me perguntou sobre meus textos e eu disse que estava escrevendo sobre desunião feminina. Ela respondeu dizendo que achava ótimo propor esse tema à reflexão porque as mulheres não são unidas mesmo. Eu escutei sua opinião e continuamos a conversa. Mais tarde, chegando em casa, reformulei totalmente meu texto inicial para inseri-la nesta versão.

Acontece que, quando entrei na loja e Ana me viu, ficou muito surpresa, ficou muito feliz, demonstrando isso com um grande, forte a caloroso abraço. Foi um abraço pleno, um abraço de corpo e alma, cheio de alegria e cumplicidade.

Então, Ana, permita-me discordar de você! Existem SIM mulheres amigas e muito unidas! E naquele abraço percebi que somos um exemplo vivo disso! Beijos, querida! Conta sempre comigo.

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