A curva CBA
A curva CBA

A curva CBA

A curva ABC, no que se refere a atividade de Auditoria Interna, por vezes surge como invertida

Vilfredo Pareto (1848 -1923) foi um cientista político, sociólogo e economista nascido na França, mas que fez a sua carreira na Itália, e a despeito de suas posições políticas, de sua aproximação teórica com o fascismo e das suas teorias elitistas, tem-se que as suas contribuições no campo da economia são relevantes, como o chamado ótimo de Pareto, no qual é impossível melhorar a situação de um agente sem prejudicar outro. Ou seja, para alguém ter vantagens, alguém tem que perder.

Mas para o presente artigo interessa outra contribuição de Pareto, a chamada curva ABC ou 80/20, que é uma metodologia administrativa do estadunidense Joseph Juran, teórico da Qualidade Total, inspirada nas ideias do estudioso italiano que observou que 80% das riquezas são concentradas nas mãos de 20% da população, conceitos atuais até hoje, como nos estudos de Thomas Piketty sobre concentração de renda, e que mostram que a desigualdade é uma realidade, não implicando necessariamente que esta deve ser naturalizada.

Essa abordagem metodológica de concentração de um atributo em uma parcela menor do universo analisado, é muito usada na gestão de estoques, mas também na contabilidade de custos, bem como em diversos campos da gestão das empresas, nas quais se precisa identificar um conjunto de itens que demanda uma maior atenção por parte do gestor. Inclusive na auditoria interna.

É comum aos auditores, diante da necessidade de realizar amostras, para a construção de opiniões sobre a gestão, eleger um critério que se concentre, em especial o valor financeiro, para que os escassos recursos da auditoria se detenham sobre aquele grupo de transações que representem o maior valor financeiro. Auditar é fazer escolhas!

Assim, diante de uma unidade com muitos contratos, é comum a auditoria deter a sua atuação estratégica naqueles 20% de maior valor. Diante de muitas filiais, aquelas que concentram a maior movimentação de transações. Para a realização de testes substantivos no estoque, busca-se aqueles de maior valor. É um critério racional, que busca otimizar a ação avaliativa, e ainda, blindar esta de questionamentos sobre a relevância das conclusões obtidas.

A curva ABC figura assim como um bom princípio da atividade de Auditoria Interna, seja no planejamento estratégico desta, seja na atuação operacional. Mas o que se vê, em casos que por vezes surgem na imprensa, é o contrário. Vê-se a utilização de uma curva CBA nas atividades de auditoria, uma inversão dessa necessidade de se dar mais atenção ao prioritário.

Por conta da autonomia que existe na atividade de Auditoria Interna, e ainda, pelo medo de represálias, em um país de uma cultura avaliativa incipiente, a solução de se deter no que não é relevante surge como convidativa, ignorando o que concentre o maior número de transações, de valor, para se deter em profundas e complexas análises sobre coisas acessórias. Relega-se ao esquecimento o adágio de Peter Drucker: “ Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito.”

Um outro vício comum também nesse sentido é uma análise superficial de todo o universo de transações da organização, na linha de toda esta precisa ser verificada, tratando desiguais como iguais, em uma equidade que é prejudicial pela complexidade da organização e ainda, por desconsiderar que a Auditoria Interna deve se vincular a agregar valor aos objetivos, e nem todos os setores contribuem de igual maneira para estes.

A fuga do relevante, do central, do mais significativo no campo da auditoria interna, é gastar energia administrativa em questões que não necessariamente protegem os objetivos organizacionais dos riscos, riscos estes que se materializam independente do trabalho da auditoria, que perde assim uma oportunidade de produzir informação específica e qualificada que possa alterar os sistemas de controles internos, mitigando riscos. E os problemas!

O principio auditorial da rotação de ênfase, que indica que o ciclo de auditorias deve perpassar por todos os processos da organização, posto que nenhum pode ser desconsiderado, é a mitigação teórica da curva ABC, mas que como princípio de equidade não pode dissociar a atuação da Auditoria Interna do aspecto estratégico da organização, podendo gerar na Auditoria um papel minimalista, de grande conferidor, o que ignora a dinâmica das transações na organização e na interação com o ambiente.

Um hospital que tenha nas suas cirurgias ortopédicas o carro chefe, que tenha no seu estoque de órteses e próteses grande parte do ativo, e que essas cirurgias sejam objeto de deslocamento de pessoas de outros estados para se beneficiar, deve ter no seu planejamento de auditoria os processos correlatos a esse tema com centralidade e presença constante, sob pena de emitir opiniões relevantes sobre temas não tão importantes, ocultando os problemas da alta gestão, com diagnósticos descolados da realidade, sendo a auditoria, e a Alta Administração, surpreendidas pelos problemas futuros e as fragilidades dos controles internos.

Muitos dirão que todos os setores são importantes, e que a auditoria não pode permitir a ocorrência de irregularidades em nenhum deles. Exatamente essa ideia utópica que o princípio concentrador de Pareto vem mostrar, que essa igualdade de condições e de valoração não existe, e que em uma organização, sim, alguns setores são mais relevantes e merecem maior atenção na consecução da missão, e ainda, que os recursos auditorias são sempre limitados, e que escolhas se fazem necessárias.

Essa pseudo democratização da escolha do escopo da Auditoria Interna pode, na verdade, revelar desídia, intimidação e falta de zelo profissional na realização da atividade, no sentido de se utilizar a preciosa auditoria, que envolve custos de planejamento, execução e monitoramento, para processos acessórios, sem relacionar assim a atividade de auditoria interna a um sentido estratégico, o que fere frontalmente a visão moderna dessa área de atuação.

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