A crise e a lição das vacas gordas

A crise atual expõe uma fragilidade que já existia em muitas empresas, e que embora aparentasse estar confortavelmente controlada, era na realidade uma bomba prestes a explodir

Não seria nenhuma novidade se eu afirmasse que estamos vivendo dias nebulosos em nosso país. Não quero aqui ampliar a discussão para o ambiente social, político e econômico além de nossas fronteiras, mas gostaria de restringir o tema ao que acontecesse em nosso quintal.

O discurso sobre a teoria do pessimismo, proferido por simpatizantes da utopia populista, torna-se cada vez menos afervorado quando se constata a realidade nua e crua do desemprego e da inflação persistente, apenas para mencionar os dois aspectos que mais afetam o cidadão comum. A não ser que você viva em alguma região inexplorada do nosso belo país, é praticamente impossível não notar que a cada semana os produtos estão mais caros nas gôndolas dos supermercados e que algum amigo ou parente foi demitido recentemente.

Inflação acumulada em quase 10%; quadro de recessão com o recuo do PIB em cerca 2,50% em 2015, segundo previsão de analistas do mercado; taxa de desemprego em 8,3% ao final do segundo trimestre e perda de 985.669 vagas do mercado de trabalho formal nos últimos 12 meses. Essa é a realidade no momento em que esse texto é escrito.

A tudo isso, acrescente-se a crise política e moral sem precedentes na história, com revelações contundentes sobre desvios colossais de dinheiro público, onde milhões de reais são tratados como troco de cafezinho; os famosos pixulecos.

Todo esse quadro caótico é motivo suficiente para desestabilizar famílias e empresas e é nesse ponto que eu gostaria de chegar. Há uma grande possibilidade de estarmos também expondo uma fragilidade que já existia em nossas empresas, e que embora aparentasse estar confortavelmente controlada, era na realidade uma bomba prestes a explodir.

Sem querer minimizar a gravidade do nosso quadro econômico, moral e político, eu chamo a atenção para algo que tem se tornado comum nesses dias sombrios: a transferência de todas as mazelas de uma administração para a incompetência do governo.

-A culpa é da crise! É o que tenho ouvido bastante nos dias atuais.

Claro que os problemas são gravíssimos. Nosso país há muitos anos gasta mais do que arrecada e tenta compensar o déficit com aumento de impostos. Mesmo assim, educação, saúde, segurança, saneamento básico vão de mal a pior. Empreender num país que tem uma das maiores cargas tributárias do mundo é um desafio quase impossível, principalmente quando os impostos pagos não retornam para a população em forma de bons serviços.

Mas é necessário um olhar mais acurado para dentro de nossas empresas e admitir a parcela de culpa que nos cabe.

Dois artigos arquivados em meu computador me chamaram a atenção recentemente.

O primeiro deles, publicado em 2010, exortava as empresas a rever o orçamento após a turbulência mundial causada pelo rebaixamento da nota de crédito dos EUA, ainda reflexo da crise do subprime em 2008.

O outro artigo, publicado em 2012 alertava para a importância da geração de caixa.

Dois aspectos extremamente importantes para uma gestão bem sucedida, mas que raramente recebem dos empresários e executivos a devida atenção.

Há um consenso cada vez maior de que o valor das empresas reside na capacidade de gerar caixa em sua atividade operacional. Com base nisso, todos os projetos deveriam ser avaliados em relação a sua geração positiva de caixa e jamais ser iniciados aleatoriamente, gerando gastos muitas vezes incompatíveis com a própria realidade da empresa e sem uma análise cuidadosa das possibilidades de sucesso. Mesmo em tempos de bonança financeira, a sensatez recomenda analisar riscos, ameaças, concorrência, tempo de retorno desse investimento, impacto no orçamento e, principalmente, se o projeto é viável em termos de geração de caixa.

Quanto ao orçamento, é imperioso que as empresas tenham a rotina de acompanhar de forma rigorosa e ininterrupta a sua elaboração, o cumprimento e correção de eventuais distorções. Descuidar-se disso é o mesmo que dirigir um veículo numa via desconhecida, em alta velocidade e sem freios. Lamentavelmente, poucas empresas dão ao orçamento a devida importância e as consequências só são percebidas quando o quadro já é bastante grave.

A bíblia conta a história de um jovem chamado José, que possuía um dom especial de interpretar sonhos e que, atendendo ao próprio faraó, revelou o significado dos sonhos que inquietavam o soberano: sete vacas gordas e sete vacas magras. Por inspiração divina, José afirmou que as sete vacas gordas significavam os sete anos de fartura porvir, e que as sete vacas magras seriam outros sete anos, mas de escassez e fome no Egito. José aconselhou o faraó a fazer reservas e ajuntar mantimentos para os dias “de vacas magras”. Faraó seguiu o conselho e o Egito atravessou de forma vitoriosa o período de crise. Tão impressionado ficou que nomeou José o seu C.E.O.

A lição de José tem milhares de anos, mas impressiona pela sua atualidade. O faraó poderia ter confiado em sua intuição e em sua experiência como senhor absoluto do Egito, mas optou pela prudência e garantiu reservas suficientes para manter o equilíbrio econômico financeiro do Egito no período da crise.

É inegável que o sucesso de uma empresa não se reduz apenas ao orçamento e à geração de caixa, muito embora eles sejam primordiais em qualquer planejamento. Há muito mais detalhes e temas a serem abordados e as livrarias lotadas de livros de administração e finanças são prova disso. Mas também é fato que negligenciar regras fundamentais não raramente conduz ao fracasso.

Quer você creia ou não na veracidade do texto bíblico, o fato é que, os que fizeram o dever de casa no período de vacas gordas e deram a devida atenção aos princípios básicos da boa gestão estarão mais preparados para o período de vacas magras que estamos atravessando e que promete ser longo.

"O planejamento de longo prazo não lida com decisões futuras, mas com o futuro de decisões presentes." (Peter Drucker)

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