A corrupção começa em nós. E a mudança também

Quando uma pessoa leva vantagem e outra sai perdendo é sinal de que algo não está correto. Nesse momento, temos que parar para refletir sobre os nossos atos. Pode parecer clichê, mas ainda é verdade que a transformação que queremos no mundo deve começar dentro de nós.

Em um momento em que o Brasil expõe tão fortemente os canais de corrupção existentes nas instituições, fica fácil a gente se indignar, se revoltar e julgar a corrupção dos políticos, das empresas, enfim, a corrupção alheia. Mas, e nós? Será que nós também cometemos deslizes que podem ser considerados matizes da corrupção?

Pois é, na semana passada, eu fui convidado pela ONG Ecos do Futuro, que tem expertise na formação de jovens aprendizes, para trocar ideias com um grupo de jovens sobre ética e política e este assunto veio à tona.

Como sempre acontece em conversas como estas, aprendemos uns com os outros, mas foi curioso perceber que muitos ali se surpreendem ao constatar que determinadas atitudes pessoais também poderiam ser analisadas como pequenos atos de corrupção, onde uma pessoa quer levar vantagem mesmo que outras sejam prejudicadas.

Vou dividir com vocês alguns dos “casos” discutidos e analisados pelo grupo:

Primeiro

Há mais de dois anos você pega sempre o mesmo ônibus para o trabalho às 6:30h da manhã, no mesmo ponto final, e, ao chegar, escolhe a fila mais vazia. Obviamente, você fez amigos ao longo desses anos. Quando algum de seus amigos chega ao ponto um pouco mais tarde, com a fila já grande, você deixa que ele vá para o final da fila ou diz para ele entrar na sua frente, afinal, todo mundo faz isto?

Segundo

Você sabe que na declaração de Imposto de Renda, pode pagar R$ 550 a menos de imposto se conseguir um recibo de fisioterapia de R$ 2 mil. Seu melhor amigo é fisioterapeuta e costuma “vender” recibos de consultas na época da declaração de IR. O que você faz? Declara o seu IR corretamente, informando apenas os gastos reais ou compra o recibo e, assim, paga menos imposto? Afinal você já paga imposto em tudo na vida e o governo gasta muito mal o dinheiro que recebe de você.

Terceiro

Ao manobrar o carro em um estacionamento com centenas de carros você, acidentalmente, bate no carro ao lado e o amassa. Ninguém viu e não há câmeras filmando. O dono também não está por perto e não tem como achá-lo. Então, você espera até o dono chegar ao carro ou deixa um bilhete preso no para-brisa, desculpando-se e com todos os seus dados (nome, telefone, e-mail) para ele entrar em contato? Ou, já que o dono não está por perto e você está com pressa, vai embora e cada um que fique com o seu prejuízo?

Eu não quero, aqui, discutir nossas respostas nem colocar um ranking de pontuação para dizer quão “certo ou errado nos saímos na prova”. Esta não é minha intenção. Quero refletir sobre que exemplos nós damos todos os dias para nossos filhos, parentes e amigos. Afinal, quando vivemos observando pequenos exemplos de atos incorretos pode ser difícil distinguir, no futuro, o certo do errado quando a vida nos puser diante de decisões mais complexas. Um bom exemplo para o primeiro caso seria se a fila do ônibus fosse a fila de doação de rim e eu tivesse a oportunidade de colocar alguém na frente. E se você fosse a pessoa que está atrás na fila, dependendo de um rim pra sobreviver?

Quando acusamos políticos e empresários de serem corruptos, podemos também imaginar que nem sempre eles foram assim. Em algum momento eles tinham ideais de um país melhor, de empresas mais éticas. Então, quando foi que eles passaram a ser corruptos? Talvez sempre tenham sido, só não sabiam que era corrupção.

Quando você está ouvindo uma música e aumenta o volume do número 2 para o 10 de uma única vez, seu ouvido percebe a diferença e você se assusta. Aliás, todos ao seu redor se assustam. Mas quando vai aumentando o volume, de 2 para 3 e depois de 3 para 4 e assim por diante, os ouvidos ao redor talvez nem percebam quando o volume atingir o nível 10.

Será que é correto imaginar que a corrupção só existe com altos valores em dinheiro? Será que levar vantagem sobre os outros só é pecado quando os esquemas são gigantescos? E se você fosse o dono do carro amassado do caso 3?

Enfim, quando um lado leva vantagem e outro lado perde, algo não está correto. E é aí que a gente tem que parar para refletir sobre os nossos atos. Pode parecer clichê, mas ainda é verdade que a transformação que a gente quer no mundo deve começar dentro de nós.

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