Café com ADM
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A beleza da efemeridade

Aquiles diz para Briseida: <i>‘Vou lhe contar uma coisa que nunca lhe ensinaram: Os deuses nos invejam porque nós somos mortais’</i>.

Aquiles diz para Briseida: Vou lhe contar uma coisa que nunca lhe ensinaram: Os deuses nos invejam porque nós somos mortais. Com a propriedade de quem sabe o que fala, pois é filho de uma deusa, o personagem vivido por Brad Pitt em Tróia complementa dizendo que os deuses detestam sua condição de imortais, pois esta elimina qualquer aspiração por um objetivo, afinal, nada tem fim na eternidade, enquanto nós somos finitos, temos um prazo.

Como não sou um leitor de clássicos como as obras de Homero, não posso afirmar se a sábia inserção num filme de pura ação é do original ou vem de um capricho do roteirista, mas o impacto em minha capacidade de reflexão é grande, pois me remete a uma viagem ao Japão há 10 anos quando descobri o sentido existente por trás de um esforço e dedicação enorme entre os artistas de uma exposição de esculturas no gelo. Maravilhosas obras de mais de 2 metros de altura, reproduzindo com perfeição animais, monumentos e personagens, expostos ao céu aberto e prestes a desaparecer pela ação do sol em menos de 3 dias.


Minha dúvida e estupefação por tal desperdício é esclarecida pela sábia explicação do senhor que nos ciceroneava: A beleza está justamente na sua efemeridade. O valor que atribuímos a algo que tem vida curta é muito maior do que aquilo que vai durar anos. Com certeza eu não acharia aquelas esculturas tão belas se tivessem sido esculpidas sobre a eterna pedra. Mas como são provisórias, elas ganham outro status, outro modelo de valor lhes é atribuído.

Para muitos empreendedores, conduzir um negócio ou um empreendimento, é um complexo e desafiador jogo em que se tem de lidar com a escassez de recursos. A sua habilidade é medida pela forma como usa estes recursos, como aproveita o tempo escasso, como utiliza as pessoas, como explora o orçamento. Para o empreendedor, a graça de enfrentar estes desafios está justamente no caráter provisório do negócio. Tudo tem um tempo, um prazo para cumprir. Ele sabe que seu negócio não é eterno, como tudo na vida, tem um início, meio e fim. Ele joga e manipula recursos, estratégias, oportunidades e alianças para ganhar sobrevidas e vencer o desafio que o tempo lhe impõe.

Que graça teria a vida do empreendedor se soubesse que sua empresa jamais fecharia? Que motivação o impulsionaria se nenhuma ameaça colocasse seu negócio em risco? Porque valeria a pena se esforçar, lutar e enfrentar adversidades se não para manter vivas suas idéias? Da mesma forma que não entramos em nenhum jogo para perder, para quê disputar já sabendo que vai ganhar? A emoção está na vitória, no prazer de sobrepujar as dificuldades, manter-se de pé enquanto outros soçobram, respirar fundo, bater no peito e dizer Sobrevivi porque lutei e não porque sou eterno!

Eu adoro lasanha. É um dos meus pratos favoritos. Minha esposa é exímia cozinheira e às vezes eu sonho com sua lasanha. Como na semana retrasada foi meu aniversário, ela, querendo me agradar, providenciou um verdadeiro banquete para reunir os amigos no último final de semana tendo como prato principal, lasanha. Para garantir que não faltasse nada e que também sobrasse um pouco para o dia seguinte, ela superestimou o cálculo e acabou preparando por volta de meio quilo de lasanha por pessoa, sem contar os outros pratos. Resultado: Há uma semana que eu como lasanha no café da manhã, no almoço e no jantar. Por mais que eu adore a lasanha dela, não agüento mais nem olhar para ela (a lasanha!), meus sonhos se transformaram em pesadelo, não poderei ver lasanha pelos próximos 6 meses e tomei esta lição como conclusão da minha coluna de hoje: Nada em exagero faz bem, lasanha, tempo ou a vida!


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