“A arte... mas, de que guerra mesmo?”.

Em função do estudo que estou desenvolvendo no programa de pós-graduação, faço rotineiramente uma busca por conhecimentos acerca dos jogos de empresa, logo, venho participando de work-shops, consultando teses, dissertações e artigos, além de fazer visitas freqüentes à bibliotecas e livrarias (inclusive virtuais). Foi neste cotidiano, que alguns fatos logo despertaram minha atenção: primeiramente, observei que o Jogo de Empresa Competitivo*, eixo central da pesquisa, ainda é uma metodologia pouco divulgada no Brasil, sofrendo por conseguinte com a escassez de literatura, de pesquisas, de cursos e principalmente de especialistas que apliquem a metodologia, que diga-se de passagem, é bastante difundida em países desenvolvidos. Em um segundo momento, verifiquei que em contrapartida ao que ocorre com os jogos, existe o desencadeamento de uma avalanche de títulos quase idênticos. Não... não me refiro aos que foram lançados no embalo de O Código da Vinci, chamo atenção sim, para um fenômeno já comum no ramo da administração e negócios, e que, por sua vez, é impulsionado pelo constante surgimento de soluções milagrosas para os problemas organizacionais contemporâneos. Entre os tsunamis de clones, pode-se citar os livros de Reengenharia (anos 90), a coleção Pai & Filho, que entre si revezam os status de rico e pobre, e ainda a série Quem mexeu no meu queijo?, no meu hambúrguer?, no meu ...?, que também já conta com a versão réu confesso:
"EU MEXI NO SEU QUEIJO!, abrindo assim, um imenso leque de opções para mais novidades. Versões inusitadas do tipo Aposentado no Brasil: EU MEXI NO SEU QUEIJO ORA! Não tinha dinheiro pro meu, e Adolescente Rebelde: EU MEXI NO SEU QUEIJO SIM! E Daí?" parecem não tardar a chegar ao mercado. Tudo bem! Meio esdrúxulo... eu sei, mas que o potencial criativo das editoras pode ir muito além disso... eu não duvido! Ora, não é a toa que ao utilizar estas fábulas de leitura fácil, elas vêm conseguindo arrecadar cifrões em vários países. Entretanto, diante tais críticas é importante destacar que estas obras têm sim a sua relevância para o mundo dos negócios. No caso da série QUEM MEXEU NO MEU QUEIJO?, aborda-se a questão do comportamento humano e da necessidade de valorizar e administrar as relações interpessoais, pontos de extrema importância em nosso dia-a-dia. É neste sentido, que o problema não reside na existência destes livros, mas no espaço excessivo que os mesmos ocupam nas livrarias, fato que acaba sendo desfavorável aos leitores que vislumbram algo novo. O exemplo mais recente deste fenômeno é o caso do livro A Arte da Guerra do filósofo-estrategista Sun Tzu, que sempre contou com apresentações diversas em função das traduções do chinês para outras línguas. Como se não bastasse, o livro agora recebe vários direcionamentos e transborda por onde passa, das bancas de revista às maiores livrarias. Certa vez, contabilizei em uma livraria doze livros cujos títulos se remetiam à obra de Tzu. Segundo a lista do próprio estabelecimento, despontavam nas vendas os seguintes: A Arte da Guerra para Gerentes, ... para Mulheres e a ... para Vendedores, todos estabelecendo conexões com a guerra deflagrada no mercado complexo e competitivo que vivenciamos hoje. Tal fato dá margem para a existência de dois outros fenômenos: o da deturpação das idéias de Sun Tzu, e o não menos grave, da acomodação do leitor, que ao invés de interpretar os ensinamentos e observar onde e quando eles poderiam ser de grande valia, prefere receber fórmulas prontas, sendo induzido à crença de que os pensamentos do chinês são leis que nunca tornam-se inválidas. Enfim... é bom prestarmos muita atenção, pois no decorrer de alguns séculos os inimigos se multiplicaram, ficaram mais fortes, adquiriram novas armas e criaram novas técnicas de combate, mudanças que nos alertam para a necessidade de avaliar a consistência dos pressupostos de Tzu em certos cenários. Entre as citações de Tzu que se confrontam com a realidade do mercado, está a que diz: Se teus inimigos forem mais poderosos e mais fortes, não os ataque. Evite cuidadosamente o que pode redundar em um conflito generalizado(...), já que, sob a ótica do empreendedorismo, o ato de evitar conflitos inibe comportamentos coringas, como a criatividade e a ousadia. Fazendo uma reflexão final de toda esta conjuntura, acredito que a análise cuidadosa daquilo que é colocado de forma massiva diante de nós, seja por parte da indústria literária, dos tais gurus do mercado ou da sociedade de uma forma geral, é imprescindível nos dias de hoje, pois embora seja de domínio público que O aprendizado floresce no caos!, seria interessante estabelecer alguma ordem para que, finalmente, fossem tiradas lições de tantas guerras. ___________________________________________________ * Os Jogos de Empresa Competitivos são oriundos dos jogos de estratégia, que consistem em derivações dos antigos jogos de guerra, utilizados em larga escala em treinamentos militares. Entre os mais conhecidos pelo grande público brasileiro, estão, o DESAFIO SEBRAE, onde universitários vivenciam o dia-a-dia de um empreendedor, e o reality show O APRENDIZ, que consiste no processo de seleção de um executivo. Os jogos alicerçam-se no preceito da simulação e da vivência e podem ser utilizados em diversas situações para atingir um vasto número de objetivos.

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    José Augusto

    José Augusto

    Bacharel em Administraçcão de Empresas e Pós-Graduado em Gestão de Pessoas.
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