A ameaça da defasagem tecnológica

As empresas argentinas já dançaram no ritmo de tango. Muitas empresas brasileiras estão ficando cada vez mais expostas á uma competição desigual em termos de tecnologia. Parece que estamos entrando num sambódromo.

O parque industrial da Argentina já foi o mais avançado da América Latina. Depois, ele parou no tempo. Defasou. Virou sucata. Ficou tão antigo quanto as letras daqueles três ou quatro tangos famosos. Atualmente, a indústria brasileira lidera o continente em termos de tecnologia e inovação. A má notícia é que essa liderança está ameaçada. Em 2005, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) pesquisou e analisou 72 mil empresas brasileiras. Elas são responsáveis por cerca de 95% do produto industrial. Os estudos revelaram que o futuro de 77% delas tende a acompanhar o ritmo dos antigos tangos que já fez dançar a competitividade da maioria das indústrias argentinas. Temos 55 mil empresas utilizando tecnologias defasadas, sem investimentos em pesquisas e, com pouquíssimas chances de competir no mercado externo. Temos 15 mil empresas ou, 21% do total pesquisado, numa posição de relativa atualização tecnológica. O alarmante é que temos apenas 1.200 empresas ou seja, menos de 2% do total, que podem ser consideradas como inovadoras, de ponta. Segundo esse mesmo estudo, essas empresas inovadoras já estão sendo recompensadas. Elas conseguem pagar salários médios três vezes maiores. Elas também conseguem preços 30% mais altos e têm mais de chances do que as demais de exportar, de competir no mercado global.

Os avanços tecnológicos atuam como uma usina de força para o desenvolvimento empresarial de qualquer nação. Infelizmente, o Brasil investe menos de 1% do seu PIB em pesquisas tecnológicas. A Coréia do Sul investe quase três vezes mais. Além dos investimentos insuficientes por parte do governo, temos sérios problemas culturais na transferência da tecnologia gerada pelas instituições oficiais. Nas universidades e institutos de pesquisa brasileiros ainda existe um sério preconceito contra a transformação das descobertas científicas em fonte de lucros para os pesquisadores, ou para alguma empresa privada. Existe uma espécie de confraria científica que teme perder alguns de seus membros para o mundo dos negócios. Para essa confraria, o pesquisador precisa ser uma espécie de sacerdote que faz voto de pobreza. Muitos professores universitários inibem o espírito empreendedor de jovens e talentosos cientistas. Eles temem perder mais uma cabeça pesquisadora para o mundo profano dos negócios. Eles abominam alguém que troca a banca (do laboratório) pelo banco. Diante disso, muitos cientistas brasileiros desenvolvem produtos fantásticos que ficam mofando nas gavetas das universidades e institutos. Além disso, existem também diversas barreiras legais que impedem que os inventos se transformem em produtos e serviços úteis para a sociedade. Impedem que eles se transformem em negócios, em riquezas.


A tecnologia gerada no Brasil avançou bastante em setores como agropecuária, siderurgia, metalurgia, automotivo, celulose, aeronáutica e petroquímica. Na última década, aumentou significativamente o número de trabalhos e teses publicados por pesquisadores brasileiros nas principais revistas científicas. Todo ano, cerca de seis mil brasileiros concluem suas teses de doutorado. Todos esses avanços parecem pífios quando se observa o número irrisório, quase ridículo, de patentes obtidas por instituições de pesquisa, universidades e empresas privadas brasileiras. As empresas de capital nacional parecem ignorar que, atualmente, é muito difícil competir globalmente sem ciência patenteada, apenas adaptando tecnologias e pagando royalties.

As empresas argentinas já dançaram no ritmo de tango. Muitas empresas brasileiras estão ficando cada vez mais expostas á uma competição desigual em termos de tecnologia. Parece que estamos entrando num sambódromo. Estamos patinando, enquanto os concorrentes asiáticos avançam a passos largos na avenida tecnológica. Nosso parque industrial precisa ser protegido contra essa terrível ameaça de defasagem tecnológica. Precisamos fazer a nova Lei da Inovação sair do papel. Precisamos integrar melhor as universidades e os institutos oficiais com as empresas privadas. Os empresários brasileiros precisam mudar essa cultura de lucrar no curto prazo. Precisam investir mais nas pesquisas tecnológicas, mesmo que elas prometam retorno financeiro no longo prazo. Precisam montar laboratórios e contratar esse enorme contingente de bons cientistas brasileiros. A tarefa urgente do Governo é: triplicar os investimentos em pesquisa tecnológica, estimular o empreendedorismo entre os cientistas e melhorar as condições de transferência para o setor privado.

Eder Bolson, empresário, autor de Tchau, Patrão www.tchaupatrao.com.br


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