11 Ronaldinhos, 6 Gibas ou 5 Hortências?

Certa vez, fui indagado, por um superior imediato, sobre quais seriam, na minha opinião, as habilidades ou competências necessárias, a cada integrante individualmente, para o sucesso de uma equipe. Meio sem jeito, pensei e disse-lhe que precisaria que todos tivessem uma habilidade específica, única mas que, se todos a tivessem, teríamos uma equipe excelente, imbatível

Dia desses me peguei lendo um artigo onde, encontrei os termos competência, habilidade e talentos, quase sempre associados e, invariavelmente, dissecando um indivíduo que, porventura, possuísse tais atributos. Resolvi pesquisar os conceitos pois, confesso, fiquei relativamente confuso.

De acordo com o dicionário Houaiss, talento pode ser interpretado como aptidão, capacidade inata ou adquirida, neste último caso, considera-se que possa ser desenvolvido com prática e treino.

Para a mestre em Educação, Thereza Bordoni, tratando de competência, é mais aceitável um conceito relacionado à capacidade de bem realizar uma tarefa, ou seja, de resolver uma situação complexa, desde que, para isso, o sujeito tenha disponíveis os recursos necessários. Ainda segundo a autora: ‘As habilidades são inseparáveis da ação, mas exigem domínio de conhecimentos enquanto as competências pressupõem operações mentais, capacidades para usar as habilidades, emprego de atitudes, adequadas à realização de tarefas e conhecimentos’. Desta forma as habilidades estão relacionadas ao saber fazer, bem como as competências ao pensar. Respectivamente, tática e estratégia.

Com isso, podemos pressupor que as competências convergem com os talentos que, por sua vez, podem ser caracterizados por uma predisposição nata, apesar de poderem ser adquiridos e aprimorados, com as habilidades, no sentido de fazer uso de conhecimentos, de agir.

Desta forma, quando uma empresa busca talentos, tal ação se caracteriza pela tentativa de captar profissionais com competências que atendam o perfil desejado, tudo aliado à habilidade de fazer bem feito. Retê-los, portanto, demandaria identificar as potenciais competências do profissional, associando-as a questões práticas, perfeitamente suscetíveis ao aprimoramento.

Mas, precisamos ir além. Somos mais que isso.

Certa vez, fui indagado, por um superior imediato, sobre quais seriam, na minha opinião, as habilidades ou competências necessárias, a cada integrante individualmente, para o sucesso de uma equipe. Meio sem jeito, pensei e disse-lhe que precisaria que todos tivessem uma habilidade específica, única mas que, se todos a tivessem, teríamos uma equipe excelente, imbatível.

E aí seu feedback, se configurou como uma lição simples, mas que levarei para o resto da vida, quando me disse que, para que um time fosse vencedor não precisaríamos de 11 Ronaldinhos, 6 Gibas ou 5 Hortências, pois desta forma teríamos excelentes pontuadores mas, quem os serviriam? Quem defenderia? Quem armaria as jogadas? Quem os substituiriam, eventualmente? Numa equipe sempre haverá espaço para o proativo, o político, o 'bruto', o tolerante, o articulador. Impossível é esperar tudo isso de uma só pessoal em níveis de excelência.

É neste ponto, que os profissionais de Recrutamento e Seleção precisam se atentar a outro conceito, fundamental ao efetivo Desenvolvimento Humano nas organizações, que contempla o ser humano como muito mais do que a soma de suas partes. Trata-se da Gestalt, uma corrente da psicologia moderna, que surgiu em meados do século XX na Alemanha pela mão de teóricos como Max Wertheimer, Wolfgang Köhler, Kurt Koffka e Kurt Lewin. Este conceito transcende a análise do ‘todo’ através da somatória de suas partes, por meio de diversas leis que a contemplam.

Na prática funciona assim, quando, por exemplo, aglutinamos as letras Á - G - U - A, associamos mais do que unicamente sua composição etimológica, obtemos sua definição, além da percepção de conceitos como sede, molhar, refrescar, hidratar, entre outros.

Assim, um candidato a uma vaga de emprego não poderia se resumir à rótulos como ‘engenheiro’,‘inglês intermediário’, ‘MBA em marketing’, ‘casado’, ‘proativo’ e, sim, enquanto um ser humano, antes de qualquer coisa, que possua em si determinadas experiências e que devam ser entendidas sob este novo contexto. Uma visão que seria didática, tornou-se regra e hoje aos somos um monte de partes de um amontoado de ‘coisas’. Didáticas à parte, não devemos aceitar ser a soma de nossas partes. Somos mais do que parecemos e, sempre, teremos muito mais a oferecer.

É válida a reflexão, portanto, se continuaremos a esquartejar, ad eternum, o indivíduo em habilidades, talentos, características, capacidades, competências, atributos, personalidade, caráter, virtudes, limitações, recursos...ou será possível vislumbrarmos um novo alvorecer, sob um novo olhar?

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