Ética: a interdependência, a sinceridade e Confúcio
Ética: a interdependência, a sinceridade e Confúcio

Ética: a interdependência, a sinceridade e Confúcio

Numa relação de interdependência, é a mutualidade da obrigação que cria a verdadeira igualdade, independentemente de diferenças de posição, riqueza ou poder

A casuística ficou tão completamente desacreditada que sua mera menção na maioria dos livros-texto sobre a história da filosofia está sempre ligada a seus adversários supremos - Spinoza e Pascal. Na verdade, há apenas cinquenta ou cinquenta e cinco anos, poucos filósofos - se algum - teriam pensado ser possível surgir algo como ética nos negócios. A ética particularista, um conjunto de princípios éticos que postula que este ou aquele grupo é diferente em suas responsabilidades éticas de qualquer outro grupo, teria sido considerada condenada para sempre pelo fracasso da casuística ( * vide nota de rodapé ). A ética, quase todo mundo no Ocidente teria considerado axiomático, certamente seria sempre a ética do indivíduo, independentemente de cargo e posição social.

Mas há uma outra ética, não ocidental, que é situacional. É a mais bem-sucedida e mais duradoura ética de todas: a ética confuciana da interdependência.

A ética confuciana evita esplendidamente a armadilha em que caíram os casuístas; ( * casuísmo: vide nota de rodapé ); é uma ética universal, na qual as mesmas regras e imperativos de comportamento valem para todos e cada um. Não há alguma responsabilidade social se sobrepondo à consciência individual, algum cálculo de custo-benefício, algum bem maior ou media mais elevada que o indivíduo e o seu comportamento, e no todo, alguma casuística ( * vide nota de rodapé ). Na ética confuciana, as regras são as mesmas para todos. Mas há regras gerais diferentes, de acordo com cinco relações de interdependência, as quais, para o confuciano, abarcam a totalidade das interações individuais na sociedade civil: superior e subordinado ( ou mestre e servo ); pai e filho, marido e esposa; irmão mais velho e irmão; amigo ( mais próximo ) e amigo ( da onça ). O comportamento correto - que, na tradução da ética confuciana para o inglês, é normalmente chamado de sinceridade.

Nenhuma palavra, senão a palavra sinceridade, causou mais mal-entendidos nas relações Ocidente / Oriente do que a palavra sinceridade. Para o ocidental, sinceridade significa palavras que são fieis à convicção e aos sentimentos. Para o ocidental, sinceridade significa atos que são apropriados para uma relação específica e que a tornam harmoniosa e de ótimo benefício mútuo. Para o ocidental, sinceridade tem a ver com intenções, isto é, com moralidade; para o oriental, sinceridade tem a ver com comportamento, isto é, com ética.

A sinceridade confuciana é aquele comportamento individual que é verdadeiramente apropriado para a relação específica de mútua dependência porque otimiza os benefícios para ambas as partes. Outro comportamento é insincero e, portanto um comportamento incorreto e antiético. Ele cria dissonância em vez de harmonia, exploração em vez de benefícios, manipulação em vez de confiança.

Um exemplo da abordagem confuciana dos problemas éticos discutidos sob o título de ética nos negócios seria o assédio sexual. Para o confuciano, é um comportamento claramente antiético porque se insere poder numa relação que é baseada em função. Isto o torna exploração. Que este comportamento insincero - ou seja, flagrantemente antiético - por parte de um superior ocorra dentro de uma empresa ou em qualquer outro tipo de organização é basicamente irrelevante. A relação mestre / servo ou superior / imediato é uma relação entre indivíduos. Por conseguinte, o confuciano não faria alguma distinção entre um gerente geral obrigando a secretária a manter relações sexuais com ele e Samuel Pepys, famoso diarista inglês do século dezessete, obrigar as criadas de sua esposa a se submeterem a suas investidas amorosas. Não faria sequer grande diferença para o confuciano que a secretária de hoje possa, em regra, demitir-se sem sofrer mais que a inconveniência da demissão se não quiser se submeter a ele, enquanto as pobres coitadas das criadas de Pepys acabassem como prostitutas, seja porque não se submeteram e foram demitidas e postas na rua ou porque se submeteram e foram demitidas quando engravidaram. Tampouco o confuciano veria muita diferença entre o vice-presidente de uma corporação praticando assédio sexual e um professor de faculdade seduzindo alunas com promessas implícitas de aumentar suas notas.

Finalmente, seria irrelevante para o confuciano que a insinceridade específica envolva relações sexuais. O superior seria igualmente culpado de comportamento flagrantemente antiético e violação das regras fundamentais de conduta se, como boa parte dos proponentes da ética nos negócios ardentemente defende, ele se colocasse na posição de um psicoterapeuta perante seus subordinados e os ajudasse a se ajustar. Por mais benévolas que fossem suas intenções, isto é igualmente incompatível com a integridade da relação superior / subordinado. Ela igualmente abusa do cargo com base na função e impõe poder. É, portanto, exploração, seja por ânsia de poder ou manipulação, ou por motivos benevolentes - de ambas as formas, é antiética e destrutiva. Tanto as relações sexuais como a relação terapeuta / paciente evem estar livres de nível de posto para serem eficientes, harmoniosas e eticamente corretas. Elas só serão construtivas como relações amigo e amigo ou marido e esposa, nas quais as diferenças de função não conferem algum nível de posto.

Este exemplo, Peter F. Drucker, chegou a escrever que, diria, torna claro que praticamente todas as questões da ética nos negócios, na realidade quase tudo o que a ética nos negócios considera um problema, têm a ver com relações de interdependência, seja a interdependência entre a organização e o empregado, o fabricante e o cliente, o hospital e o paciente, a universidade e o estudante, e assim por diante.

A consideração da ética da interdependência resolve de imediato o enigma que deixa confusa a presente discussão da ética nos negócios: que diferença faz se certo ato ou comportamento que ocorra numa empresa, numa organização sem fins lucrativos ou fora de qualquer organização? A resposta é clara: absolutamente nenhuma. De fato, as questões que são tão ardentemente debatidas na atual discussão da ética nos negócios, tais como se a mudança de um hospital da condição de sem fins lucrativos para a de particular e com fins lucrativos afetará seu comportamento ou a ética a ele atinente, a mais ligeira exposição à ética da interdependência revela serem sofismas e não questões.

A ética da interdependência, assim, efetivamente aborda a questão que a ética nos negócios procura tratar. Mas a atual discussão, explícita ou implicitamente, nega a percepção básica da qual a ética da interdependência parte e à qual deve ela sua força e durabilidade: ela nega a interdependência.

A ética da interdependência, conforme os filósofos confucianos primeiro a codificaram pouco depois a morte de seu mestre, no ano quatrocentos e setenta e nove antes de Cristo, considera ilegítima e antiética a inserção do poder nas relações humanas. Ela assevera que a interdependência exige igualdade de obrigações. Os filhos devem obediência e respeito aos pais. Os pais, por sua vez, devem afeto, sustento e respeito aos filhos. Para cada exemplo de devoção filial na hagiologia confuciana, como o da filha cumpridora dos seus deveres, há um exemplo de sacrifício parental, como o do pais amoroso que sacrificou sua brilhante carreira no tribunal para cuidar de seus cinco filhos e lhes dar o tempo e atenção de que precisavam. Para cada ministro que arrisca o seu emprego, ou até sua vida, por destemidamente corrigir um imperador culpado de violar a harmonia, há um imperador que daria a própria vida para não jogar um ministro leal aos lobos políticos.

Na ética da interdependência, só há obrigações, e todas as obrigações são mútuas. Harmonia e confiança - isto é, interdependência - exigem que cada lado seja obrigado a fornecer o que o outro lado precisa para atingir seus objetivos e se autorrealizar.

Mas, na discussão americana - e europeia - de hoje, relativa á ética nos negócios, ética significa que um lado tem obrigações e o outro lado tem direitos, senão até direitos adquiridos e merecidos. Isto não é compatível com a ética da interdependência e, na verdade, com ética alguma. É a política do poder, e com efeito a política da evidente exploração e repressão. Dentro do contexto da interdependência, os exploradores e os opressores não são os chefes, mas aqueles que afirmam os seus direitos em lugar de aceitar a obrigação mútua e, com ela, a igualdade. Restabelecer o equilíbrio numa relação de interdependência - ou ao menos assim insistiria a ética da interdependência - exige não opor poder contra poder ou direito contra contra direito, mas coadunar obrigação com obrigação.

Para ilustrar: o atual debate em torno da ética na organização dedica grande atenção ao dever de se ser um whistle-blower ( empregado que denuncia práticas desonestas ou ilegais do empregador com atividades comerciais etc.; ato de fazer tal denúncia ) e à sua proteção contra retaliação ou repressão por parte do seu chefe ou de sua organização. Isto soa nobre. Certamente o subordinado tem o direito, senão até o dever, de trazer a público e para ação corretiva os maus atos dos seu superior, e mais ainda a violação da lei por parte de seu superior ou da sua organização empregadora. Mas, no contexto da ética da interdependência, o whistle-blowing é eticamente bastante ambíguo. Sem dúvida há delitos do superior ou da organização empreendedora que tão flagrantemente violam a correção e as leis, que o subordinado ( ou o amigo, ou o filho, ou até mesmo a esposa ) não pode permanecer em silêncio. É isto, afinal, que a palavra felony ( crime doloso, delito grave ) implica; a pessoa torna-se partícipe de um delito e sujeita a responder criminalmente por não denunciá-lo e, por conseguinte, por acobertá-lo. Mas, por outro lado, não é primário que o estímulo à denúncia corroi o laço de confiança que liga o superior ao subordinado? Estimular o denunciante implica fazer o subordinado perder a confiança na disposição e capacidade dos seu superior de proteger seu pessoal seu pessoal. As pessoas deixam e ser seu pessoal e se tornam inimigos potencias ou joguetes políticos. No final das contas, estimular e, de fato, até permitir a ação dos denunciantes sempre torna o mais fraco - ou seja, o subordinado - impotente contra o superior inescrupuloso porque este não pode mais reconhecer nem cumprir sua obrigação para com o subordinado.

No frigir dos ovos, whistle-blowing é uma outra palavra para informação, ou seja, denúncia, delação. E talvez não seja exatamente irrelevante que as únicas sociedades da história ocidental que estimularam os informantes forma as das tiranias sangrentas e infames - Tibério e Nero em Roma, a Inquisição na Espanha de Fillipe segundo, o Terror francês e Stalin. Pode também não ser por acaso que Mao Tsé-Tung, quando tentou estabelecer uma ditadura na China, organizou a delação em massa. porque, sob um regime de delação, o regime do informante, não é possível haver alguma confiança mútua, alguma interdependência e alguma ética. E Mao só fez seguir os primeiros totalitários da história, os legalistas do terceiro século antes de Cristo, que aboliram Confúcio e queimaram os seus livros porque ele ensinava ética e havia rejeitado o absolutismo do poder político.

Os limites d obrigação mútua são de fato uma questão central e difícil na ética das interdependências. Mas, para começar, da maneira como os defensores do whistle-blowing fazem, com o pressuposto de que só há direitos de um lado, torna impossível haver qualquer ética. E, se o problema fundamental da ética é o comportamento nas relações de interdependência, então as obrigações devem ser mútuas de ser iguais para ambos os lados. Com efeito, numa relação de interdependência, é a mutualidade da obrigação que cria a verdadeira igualdade, independentemente de diferenças de posição, riqueza ou poder.

A atual discussão da ética nos negócios nega isto de forma estridente. Ela tende a afirmar que, em relações de interdependência, um lado tem todos os deveres, e o outro lado, todos os direitos. Mas esta é a afirmação do legalista, a afirmação dos totalitários, que logo acabam negando toda e qualquer ética. Ela deve também significar que a ética se torna a ferramenta dos poderosos. Se um conjunto de princípios éticos é unilateral, então as regras são escritas por aqueles que têm posição, poder e riqueza. Se a interdependência não for igualdade de obrigações, ela se torna dominação.

O exame da ética nos negócios como uma ética da interdependência revela um problema adicional e igualmente sério - na verdade, um problema mais sério.

Pode ser uma ética da interdependência ser qualquer coisa além da uma ética para indivíduos? Os confucionistas disseram que não - um dos principais motivos de Mao tê-los proscrito. Para o confuciano - mas também para o filósofo da tradição ocidental - somente a lei pode tratar dos direitos e objeções do coletivo. Ética é sempre uma questão da pessoa.

Mas será isto adequado para uma sociedade de organizações como a ocidental? Esta pode ser a pergunta central para o filósofo da sociedade moderna, na qual o acesso ao sustento, à carreira e ao êxito existe principalmente dentro e através das organizações - e, em especial, para a pessoa altamente instruída, para quem as oportunidades fora das organizações são realmente muito escassas. Em tal sociedade, tanto a sociedade como o indivíduo dependem cada vez mais do desempenho, como também da sinceridade, das organizações.

Mas, na atual discussão da ética nos negócios, sequer se enxerga que há um problema. Outras informações podem ser obtidas no livro Os novos desafios dos executivos, de autoria de Peter F. Drucker.

* P. S.:

Nota de rodapé:

O que é casuística é melhor introduzido em

https://administradores.com.br... .

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