O que podemos aprender com o Canadá para melhorar a educação brasileira?

Saúde e educação representam a maior despesa no orçamento do governo do Canadá, destaca educador canadense

Agatha Justino e Simão Mairins, Administradores.com,

De acordo com dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apesar dos avanços, a educação do Brasil ainda está bem abaixo da média internacional nos três grandes grupos utilizados pelo órgão no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) para estabelecer parâmetros: leitura, matemática e ciências. Os motivos são vários: pouco investimento, mau gerenciamento, má remuneração de professores e por aí vai. As soluções aparecem quase no mesmo volume. Na prática, entretanto, pouco se avança.

Em uma posição bastante diferente, o Canadá ostenta índices invejáveis nas três categorias, bem acima da média brasileira e também maiores que a média global. O que podemos, então, aprender com o país para melhorarmos nossa educação? No Brasil para participar de um evento promovido pelo Yázigi de João Pessoa/PB, o professor canadense Ron Harris conversou com o Administradores.com e apresentou algumas ideias que podem servir de inspiração para governantes e educadores brasileiros. Afinal, somente com um modelo de educação realmente eficiente podemos pensar em um país, de fato, desenvolvido.

Administradores.com - Por que a educação do Canadá tem um desempenho tão bom, acima da média internacional?

Ron Harris - Existem várias razões. A primeira, que vemos nos países em que os estudantes se saem bem, é que a nação acredita que a educação é um dos instrumentos mais importantes. Não apenas acreditam, mas mostram verdadeiramente. No Canadá, saúde e educação representam a maior despesa no orçamento do governo. Além disso, é preciso crer que todo aluno pode ser bem sucedido, não importa a sua trajetória familiar, renda ou outros problemas. Outro ponto é que as crianças são obrigadas a ir à escola a partir dos cinco anos até os 18. Se elas faltarem, alguém vai até elas para perguntar o que está acontecendo. Os pais também reconhecem o valor da educação, ensinam aos filhos a importância de ir à escola e procurar uma boa universidade. A mensagem desses pais é: "Eu tenho que ma sair bem na escola se eu quiser ser bem sucedido na vida". E, por último, pessoas que ensinam precisam ser valorizadas. Em muitos países que visito é natural que um professor ganhe mais trabalhando no setor privado que nas escolas públicas. Então não é o mesmo valor, dada a importância do papel do professor. No Canadá, os professores ganham o mesmo salário que receberiam se partissem para uma empresa comum. Então, reconhecer os bons professores é o número 1 para se ter uma boa educação.

Ron Harris (Foto: divulgação/Yazigi João Pessoa)

 

Qual o papel da família nos processos de educação?

É interessante como um bom professor nunca pode ser substituído. Mas o segundo ponto para se garantir uma educação de qualidade é o envolvimento da família. Criando expectativas: "você vai para escola", "você consegue ler e vai fazer os trabalhos", "você será bem-sucedido lá". A família deve conversar sobre o futuro, que tipo de carreira existe lá fora e programas universitários. A criança cresce com o objetivo de ir para a universidade, buscando o próximo passo, em vez de passar o colegial pensando: "eu devo ir à escola hoje?".

Aqui no Brasil, é muito comum os estudantes terem dificuldades de escolher o curso superior que vão cursar e, por isso, muitas vezes iniciam a graduação e desistem por não se identificarem. Qual o papel dos pais e da escola na orientação e auxílio aos estudantes com relação a essa questão ao longo da vida acadêmica?

Fazer com que um jovem saiba qual é a sua paixão, o que está no coração dele, é bem difícil. O que a escola e os pais devem perguntar é "o que você gosta de fazer", e não o que você "gostaria de ser", porque o que eles gostariam de ser aos 14 ou 15 anos é mais um sonho. É possível descobrir a paixão de um jovem fazendo uma série de perguntas e mostrando do que eles realmente gostam. Se um dia esse jovem conseguir um emprego naquilo que ele sente prazer, não será um trabalho. Por último, os pais não devem dizer: "você precisar ser um médico ou advogado". Não é papel da família direcionar o estudante, e sim ajudá-lo a se identificar.


"É mais importante que você saiba aplicar o conhecimento que você tem do que apenas saber certas coisas" 

Os alunos do Canadá têm seu melhor desempenho em ciências. Já no Brasil, o melhor desempenho é em leitura. Por que essa diferença, em sua opinião?

O Canadá se saiu bem porque valoriza e investe em educação, reconhecendo os professores e sempre buscando atrair os melhores para a escola, e não para o setor privado. Hoje, o que o mundo espera das pessoas em seus trabalhos é bem diferente do que há 15 anos. Há 15 anos, nós pedíamos que os estudantes apenas memorizassem o conteúdo e na hora das provas esse conhecimento era devolvido. Mas agora é importante que as pessoas não apenas acumulem informação, mas que saibam quando, como e onde usá-las. É preciso desenvolver a habilidade de resolver problemas, tomar decisões, criar um posicionamento e um argumento que vai persuadir nós dois a pensarmos como ele. Isso é bem diferente do passado. O teste PISA ao qual você se referiu mede essas habilidades, e se os estudantes não foram ensinados a fazer isso na escola, mesmo que isto não faça parte o currículo escolar, eles não vão se sair bem. Nós estamos promovendo uma mudança no Canadá, na qual é mais importante que você saiba aplicar o conhecimento que você tem do que apenas saber certas coisas. Existe uma corrente que chamamos de "ensinando para a prova", mas o que essa prova exige é o mesmo que o universo corporativo exige.

Aqui no Brasil algumas escolas veem adotando o ensino integral e até mesmo o sistema público já começa a implementar esse modelo. O que você acha dessa proposta?

Eu acho uma boa ideia que a criança passe ao menos seis horas na escola. Porém, mais tempo na escola não significa melhores resultados. Se você continuar fazendo a mesma coisa, que não está lhe levando a melhores resultados, fazer por mais tempo não vai ajudar em nada. No Canadá, 90% dos estudantes frequentam escolas públicas, porque são valorizadas. O que eu sei, sobre o Brasil, é que ir a uma escola pública não é tão bom quanto ir a uma escola particular. Então, se você vai aumentar o tempo na escola é importante observar o que está sendo ensinado e por quem está sendo ensinado.

"Crianças podem começar a desenvolver a habilidade de ler com um ano"

Aqui no Brasil, o Ministério da Educação tem como meta que todo estudante esteja alfabetizado aos oito anos. No Canadá, com que idade, em média os estudantes aprendem a ler? O que você pensa sobre essa meta do Brasil?

Eu acho que oito anos é muito tarde. Crianças podem começar a desenvolver a habilidade de ler com um ano, o primeiro passo é fazer com que elas criem um amor pela leitura e pelo que os livros são capazes de oferecer. Estudantes cujos pais tinham o hábito de ler na infância possuem um desempenho melhor na escola, eles se colocam meio ano a frente dos outros. É preciso entender o processo de leitura e como aprendemos a ler que se divide em decodificação, a habilidade de ler a palavra e identificá-la, depois vem a compreensão, o entendimento do que se leu.

"Um bom professor consegue ensinar a um aluno especial da mesma forma que ensina aos outros"

Como as escolas devem lidar com as crianças que possuem dificuldades em aprender, como as que sofrem de dislexia?

Crianças que possuem dificuldades em aprender a ler participam de programas especiais criados pelo governo e os professores são treinados para lidar com elas. Mas, na realidade, um bom professor consegue ensinar a um aluno especial da mesma forma que ensina aos outros. Isso vai dentro do que eu disse sobre o que é necessário para que um país se destaque na educação: é preciso acreditar que todos os estudantes são capazes de aprender. 

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