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O grande segredo: uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco

O sucesso depende de todos os elos da corrente, mas uma pessoa só vai até onde o elo mais fraco permite ir

José Augusto,
Shutterstock

De acordo com Peter Drucker, “O dever fundamental da Administração é tornar possível às pessoas o trabalho conjunto, dando a elas objetivos comuns, valores comuns, a estrutura certa e o treinamento e desenvolvimento de que elas precisam para reagir e atuar sobre as mudanças”. E o sucesso de um administrador, no exercício da sua profissão, vai depender daquilo que é conhecido como o elo mais fraco. Vejamos o que isto quer dizer.

Para começar, vamos lembrar de Aquiles, o herói da mitologia grega, que não obstante todas as suas qualidades e poder, não resistiu a uma flechada no calcanhar. Portanto, para Aquiles o elo mais fraco de era o calcanhar. E no caso de Zinedine Zidane, jogador de futebol da seleção francesa, qual foi o elo mais fraco? Na Copa do Mundo de Futebol de 2006, Zidane tinha um sonho, ser campeão do mundo. Era super competente, pois já havia sido eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA mais de uma vez. Estava extremamente motivado, inclusive por ser aquela a última Copa de que participaria, e nada melhor do que sair como campeão. Mas apesar de tudo isto, Zidane não foi campeão do mundo. E qual foi o elo mais fraco? Zidane foi provocado por um jogador italiano, acabou dando uma cabeçada no jogador adversário e foi expulso do jogo. Para Zidane, o elo mais fraco foi seu estado mental e emocional. 

O sucesso portanto, depende de todos os elos da corrente, mas uma pessoa só vai até onde o elo mais fraco permite ir. Mas o conceito de elo mais fraco também se aplica a estratégias, processos e estruturas. No PERT, por exemplo, corresponde ao caminho crítico e numa linha de produção ao ponto de estrangulamento. E quando Napoleão Bonaparte invadiu a Rússia, qual foi o elo mais fraco para Napoleão? Não estar preparado para o inverno. O elo mais fraco é aquilo que pode botar tudo a perder.

Vejamos alguns pontos relevantes da corrente que merecem atenção especial.

Quem tem sucesso nem sempre sabe porque teve sucesso

Para se conhecer todos os elos da corrente é útil partir da orientação de que “quem quer sucesso, estuda o sucesso”, pois assim não vai ser preciso inventar a roda, entre outras coisas porque quem fica querendo inventar a roda pode acabar inventado a roda quadrada. Mas este estudo deve estar focado no que as pessoas de sucesso realmente fizeram ou fazem, e não no que elas dizem ou supõe fazer ou ter feito. Neste sentido, um ótimo exemplo é o da australiana Rhonda Byrne. Não resta a menor sombra de dúvidas de que ela é um sucesso. Seu livro, O Segredo, só no primeiro ano vendeu por volta de 5 milhões de exemplares. Rhonda considera que recebeu, ou seja, teve sucesso, porque pediu e acreditou, mas esqueceu de considerar várias outras coisas importantes que fez e que contribuíram para este sucesso, entre elas as seguintes: trabalhou duro, tanto sozinha como em equipe, tinha uma grande competência, soube utilizar de um esquema de marketing muito inteligente. 

Um outro caso interessante é o de Henrique Meirelles, que foi o primeiro estrangeiro a ser presidente de um banco americano. Meirelles assim que começou sua carreira, foi indicado para substituir uma pessoa que havia fracassado. E, ao contrário do que é usual, não ficou criticando o outro. O que fez foi se entrevistar com esta pessoa para poder entender sobre o porquê dos erros que ela havia cometido. É que Meirelles tinha um princípio: “aprenda com os erros dos outros que dói muito menos do que aprender com os próprios erros”. Assim, existem 4 formas de se identificar os elos da corrente: aprender com os sucessos e os erros dos outros e aprender com os próprios sucessos e erros.

Quem perde o jogo interno perde o jogo externo

O conceito de jogo interno foi criado por Timothy Gallwey, que é considerado o pai do coaching. Gallwey era treinador de tênis e constatou que todo tenista tem dois adversários. O adversário externo e o adversário interno, e quem perde o jogo interno, não importa quão competente e preparado possa ser, acaba perdendo o jogo externo. E Zinedine Zidane foi um exemplo marcante disto. Um dos componentes do jogo interno é o estado mental e emocional. Sempre que alguém entrar num estado mental e emocional fraco de recursos, acaba perdendo o acesso às suas competências. E o que deve ser notado é que para tudo o que se faz na vida existe um estado mental e emocional apropriado.

Tudo começa pelo corpo: quando a cabeça não pensa o corpo padece

Existe uma relação mente/corpo. A mente influencia o corpo, mas o corpo também influencia a mente. E todo o administrador que quiser ter excelência de desempenho deve estar atento à sigla SRRED, que quer dizer sono, respiração, relaxamento, exercício e dieta. Assim, por exemplo, que dorme mal não pode ter um bom desempenho.

Em 2009, a ciclista brasileira Daniela Genovesi entrou para a história do esporte nacional. Foi a primeira latino-americana a vencer a Race Across America, talvez a prova mais dura do ciclismo mundial. É uma competição que vai de costa a costa nos Estados Unidos, são mais de 4.800 quilômetros com largada na Califórnia e chegada em Maryland. Daniela completou a prova em menos de 12 dias. A segunda colocada foi a americana Janet Christiansen. E o que é relevante neste caso foi a estratégia de corrida das duas atletas. Enquanto Janet pedalava até ficar cansada, com o corpo esgotado, e só então descansava, Daniela tinha o seu descanso programado por dia de corrida. No início da competição a americana disparou na frente. Mas pouco a pouco, Daniela foi encostando e no oitavão dia ultrapassou a americana. 

Uma questão fundamental nesta história é entender a estratégia de corrida das duas atletas e suas consequências. Janet não respeitava e ultrapassava os limites do seu corpo, mas Daniela sim, pois tinha descansos programados. E aqui vem a lição fundamental: toda vez que alguém ultrapassar os seus limites vai ter problemas e retrocessos. Assim, não ultrapasse, mas amplie os seus limites. E isto vale para qualquer área da vida, como no caso do empresário, que tinha um negócio próspero e que conseguiu transformar um faturamento anual de R$ 2 milhões em uma dívida de R$ 750 mil. Isto porque, gastou mais do que podia, ou seja, ultrapassou seus limites de gastos.

Em termos de relação corpo/mente vale o seguinte: trate bem o seu corpo que o seu corpo vai tratar bem de você. Mas se você tratar mal do seu corpo o seu corpo vai lhe maltratar com contusões, estresse, infartos e outros problemas, inclusive de fragilização do seu sistema imunológico.

A mente consciente e a mente inconsciente

Muitas coisas acontecem na nossa mente além dos pensamentos conscientes. É que temos duas mentes. E numa delas os processos mentais ocorrem sem que tenhamos acesso direto a eles. É a mente inconsciente, que é a mais poderosa. É a mente da criatividade e do gênio. Enquanto a mente consciente precisa de descanso, a mente inconsciente trabalha o tempo inteiro. Assim, o químico August Kekulé descobriu que o benzeno é uma cadeia fechada de átomos de carbono durante um sonho. A mente consciente está sujeita ao controle voluntário. O controle da mente inconsciente é feito indiretamente através do pensamento dominante.

O mapa e o território: como você representa o mundo externo. A Teoria Geral dos Sistemas e a Cibernética

O que a maioria das pessoas não se dá conta é que só é possível pensar através da simbolização. Assim, tente pensar sem usar palavras, desenhos ou qualquer tipo de símbolo e você verá que o que acontece é um vazio. Existem símbolos fracos, que levam ao pensamento fraco, e símbolos fortes que permitem operar sobre a realidade com sucesso. Assim, por exemplo, por que Cristovão Colombo foi o primeiro navegador a tentar fazer uma viagem de circunavegação? Porque representava a Terra como sendo uma esfera. Para os navegares que representavam a Terra como sendo um plano, a ideia de fazer uma viagem de circunavegação seria um verdadeiro absurdo. Assim sendo, muitas vezes as limitações são autoimpostas e decorrentes das simbolizações, conceitos e modelos que utilizamos.

E para um administrador, conhecer a Teoria Geral dos Sistemas é fundamental, pois afinal de contas, pessoas, grupos, equipes e empresas são sistemas.

Uma outra conceituação e simbolização poderosa é a da cibernética, entre outras coisas, porque não se chega ao sucesso diretamente, mas sim por aproximações sucessivas. E também porque o cérebro funciona de acordo com os princípios da cibernética, como constataram seus criadores, Norbert Wiener e John von Neumann.  

O produto final do trabalho de um administrador são decisões e ações (Peter Drucker)

A primeira coisa a constatar é que queiramos ou não estamos sempre decidindo e nem sempre nos damos conta de que estamos decidindo. Logo pela manhã já se toma uma decisão: se o nosso dia vai ser AAA ou DDD, ou seja, ameno, agradável, apaixonante ou difícil, desagradável, depressivo.

O fato é que decidir não é nada fácil. Assim, um estudo conduzido por Paul Nutt, professor da Universidade de Ohio, abrangendo um período de 19 anos com executivos e gerentes de 365 empresas, mostrou que mais de 50% das decisões, de uma forma ou de outra, fracassaram. Reforçando este estudo há a constatação da demissão ou da aposentadoria forçada de um número razoável de CEOs. Só no ano de 2000, por exemplo, foram cerca de 40 em empresas da lista da Fortune 500, tais como Compaq, Gillette, Hewlett-Packard, Xerox e Motorola.

Três pontos são importantes: conhecer sobre a tecnologia do processo decisório e solução de problemas, entender o conceito de mapa e território e saber sobre o que decidir. O que precisamos ser conscientes é que queiramos ou não, estamos sempre decidindo, pois não decidir já é uma decisão. E que toda decisão é uma escolha entre alternativas. Assim, a sua decisão é tão boa quanto a melhor alternativas que você conseguiu criar. Mas a verdadeira decisão importa em ação e existem dois problemas: a decisão equivocada que acaba levando a uma ação equivocada e a procrastinação, ou seja, não se fazer e ficar adiando aquilo que se sabe ser fundamental para que se chegue aos resultados desejados.

A sabedoria

Sabedoria e lucidez são fundamentais. A sabedoria é o que permite distinguir o que é possível do que é impossível. O mundo tem limites. Só que os limites podem ser reais ou autoimpostos. Os navegadores que acreditam que a Terra era plana, se impunham limites em função dos seus modelos mentais. Mas acreditar que não existem limites é sentimento de onipotência e não ter consciência de que uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco.

Quando começou a ser difundida a importância de correr para a saúde, houve um livro, O Guia Completo de Corrida, de Jim Fixx, que na época de sua publicação, em 1977, foi um sucesso mundial. Só que teve um problema: Jim Fixx morreu correndo. O ela mais fraco de Jim Fixx não eram as pernas mas o coração.

Assim, a Oração da Sabedoria é fundamental.

“Dai-me força e competência para mudar o que pode ser mudado.
Paciência para aceitar o que não pode ser mudado.
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

E à sabedoria se pode acrescentar o que o cientista russo Ivan Pavlov, já no final de sua vida, respondeu quando perguntaram o que ele recomendava para se ter sucesso. A resposta foi simples: gradatividade e paixão. Mas além desta resposta, também se pode acrescentar: mudança de paradigma.

Em tempo: saiu uma listagem no site da revista Exame com indicação de 10 livros para quem quiser negociar melhor, e meu livro Negociação Total está entre eles


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