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Controle de Preços: filme de 3.900 anos

...cada empresa é única, com seu espaço, tempo, circunstâncias e como dizem os médicos: não existem “doenças” mas sim “doentes” e cada caso é um caso...

Luiz Affonso,

Lembro-me bem. Mr. Smith cumprimentou-me sorridente e convidou-me a sentar. Foi rápido e logo ao objetivo de nossa reunião. Afinal, como executivo importante da “XYZ”, multinacional com interesses em toda a America Latina, ele não tinha muito tempo a perder no país:

“Minha Direção lá  fora anda  preocupada com uma possível  mudança na política de preços em alguns países, como no Brasil. Por exemplo, justo agora a Argentina lançou  um “remake” de um filme que já foi visto, por vocês, aqui no Brasil e que deu no que deu.  Ora, caro Consultor, como  o senhor sabe nosso planejamento estratégico é feito com a antecedência  de até cinco ou mais anos. Assim, estamos estruturando um”Plano B” – por ora meramente  preventivo –, caso essa onda de mudanças se propague, se confirme,  de fato, aqui e em outros países de nosso interesse.  Nosso depto. Legal  organizou uma planilha, com dados interessantes que o senhor havia fornecido em 2005 sobre o assunto, como pode ver.” E exibiu o seguinte quadro, perguntando: “O que acha que deveríamos fazer?”

CONTROLE DE PREÇOS,  UM “REMAKE” ARGENTINO

O QUE ARGENTINA PRETENDE FAZER (2013)  vs. O QUE FOI FEITO NO BRASIL (1940- 94) 

a)  Argentina: Congelamento no Comércio vs. a) Brasil:Controle de Preços e Salários e Congelamento de Preços

b) Órgão controlador Argentina: : Secretaria de Comercio Interior vs. b) Órgão controlador Brasil: COFAP, SUNAB, CONEP, CIP , SEAP, DAP

c)  FOCO Argentina: Congelamento de  500 produtos no comércio vs. c)FOCO Brasil: Controle de Preços e Congelamento Geral de Preços e Salários

d)  SANÇÕES Argentina: Interdição do estabelecimento vs.  d) SANÇÕES Brasil: Interdição do estabelecimento, desapropriação ,  corte de crédito e de redesconto de duplicatas,

e) FISCALIZAÇÃO Argentina: fiscais municipais, militantes e fiscais voluntários vs.

e) FISCALIZAÇÃO Brasil: fiscais da SUNAB, Receita Federal, Justiça, Polícia Federal, “fiscais voluntários” 

f) PRODUTOS “VITAIS”, ENTRE  OUTROS na Argentina : Produtos vendidos nos supermercados vs. f) PRODUTOS “ VITAIS”, ENTRE  OUTROS no Brasil:  flores, caixa de fósforo,lavagem de roupa, talco para gatos e cães, alimentos, automóveis, medicamentos, cimento,corte de cabelo...

h) Resultados esperados pelas autoridades: 

Derrubar a inflação.

i) Resultados realmente alcançados

Represar os preços por curtíssimo período para vê-los explodir logo adiante, após ágio, câmbio negro, desabastecimento, prisões, condenação à morte (edito de Diocleciano).  

O Consultor pigarreou embaraçado e lembrou-se de Picasso. Estava o  pintor num restaurante, a comer tranquilamente sua “paella” quando dele  se aproximou  um admirador, que estava  por ali  a tomar seu “champagne”,  e  estendendo um guardanapo  pediu-lhe  um pequeno favor. Dava para o mestre “desenhar” ali qualquer coisa, quem sabe um esboço, algumas linhas somente, como lembrança daquela feliz coincidência?

Com isso,  Picasso desenhou, rapidamente, um perfil do pedinte mas antes de lhe entregar disse o “preço”:

-  “São 20.000 dólares.”

-  “Tudo isso – disse o sujeito – por  alguns minutos de trabalho?” 

- “Certo, alguns minutos e mais 30 anos para chegar a quem eu sou!" Pano Rápido!

Li com atenção, pigarreei e me perguntei: deveria dar minha opinião ali, de graça?  Pensei nos estudos, análises e trabalhos  acerca de  congelamentos que remontam à Antiguidade, ponderei com outros trabalhos que já tinha feito para as empresas do conglomerado “XYZ”  e – quem sabe –, em noutros mais à frente que farei  e opinei:

“Bem, há várias alternativas que poderíamos  sugerir. Sabe, na verdade, só um estudo mais detalhado poderia indicar qual o melhor caminho, contudo me ocorrem as seguintes medidas:

1º. Faça de contas que todos os seus preços tivessem sido “congelados” aos níveis dos efetivamente praticados  três meses atrás. (Isso porque sempre essas intervenções tem natureza retroativa). Com isso, como ficariam suas margens de lucro, para seus diversos produtos/serviços, nas diversas áreas de venda e canais de distribuição?;

2º. Em seguida, destaque as linhas com melhores resultados e focalize  nelas seus esforços de produção, vendas e investimentos;

3º. Tenha presente, entretanto, que o que importa realmente  é a contribuição  marginal de cada uma delas – a diferença entre seus custos variáveis e seu preço liquido de venda –, esquecendo,  por ora, seus custos fixos;

4º. Também poderia pensar em  reduzir seus custos fixos terceirizando parte de sua produção e vendas, transferindo,assim, parcela da sua carga de custos fixos para os somente de natureza variável – reduzindo seu risco e dando mais flexibilidade  às suas estratégias  e opções comerciais. Se acontecer o pior você dilui seus riscos; e

5º. Desenvolva agora, enquanto as coisas ainda estão bem,  e não quando piorarem,  um Programa de Otimização de Custos e  Recursos, atuando preventivamente na sua estrutura de custos e não corretivamente, post-facto, já que ,Mr. Smith, como o senhor bem sabe, no mais das vezes, a Contabilidade  é como o médico legista que só intervém quando já é muito tarde e o paciente já morreu.

Calei-me – quem sabe tinha até falado de mais – e de graça! Porém acrescentei:

“Lembrando, entretanto, Mr. Smith que cada empresa é única, com seu espaço, tempo,  circunstâncias  e como dizem os médicos: não existem “doenças” mas sim “doentes”  e cada caso é um caso...Desse modo, caso haja Interesse de sua parte podemos conversar, com mais vagar, sobre tudo isso. Ficamos às ordens.”

E cumprimentando Mr. Smith, alegando outros compromissos,  levantei-me rápido e sai de mansinho... Afinal, não sou nenhum Picasso,  mas, também, não  sou tolo de todo.

Consultores Luiz Affonso Romano e Paulo Jacobsen

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Tags: Consultoria, Intervenção e Regulação no Brasil( Romano, Luiz Affonso) Controle de Preços e salários, congelamento de preços,

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