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Vergonha de ser brasileiro

Não importa se você é de esquerda, direita, votou no Lula ou reza pelo retorno do FHC. Tem coisas que simplesmente estão erradas

Fábio Zugman,
Shutterstock

Meus bisavós fugiram da matança. Há não muito tempo atrás, o estado alemão julgou que minorias deviam ser perseguidas e mortas. Homossexuais, ciganos e judeus estiveram entre as maiores vítimas. As pessoas discutem, tentam achar significados e teorias - já perdi as contas de quantas vezes ouvi o ofensivo comentário: “Ah, mas vocês devem ter feito algo”. (Ironicamente as pessoas se ofendem quando pergunto como elas se sentiriam se toda a sua família fosse assassinada e depois alguém viesse perguntar o que fizeram para merecer isso). Um pouco de conhecimento de história nos ensina que Inimigos inventados servem para unir povos, e minorias sofreram por toda a história como bodes expiatórios de governos autoritários.

Após a segunda Guerra mundial, os integrantes do exército nazista, soldados e policiais encarregados da matança, disseram que estavam apenas cumprindo ordens.

Eu tive mais sorte que meus bisavôs. Nasci ali perto de onde hoje se protesta tanto, na região da Paulista em São Paulo. Meu pai ainda passou alguns sufocos como estudante na época da ditadura. Até agora eu tive sorte.

Independente de qual sua posição política, é impossível não ter ouvido algo sobre a bagunça que tomou conta da cidade. Vou dizer o que sei: Uma amiga minha conta que a primeira manifestação nem tinha muita gente, provavelmente eram os reais atingidos pelo tal aumento da tarifa do ônibus. Mas a polícia chega batendo, empurrando, até quem estava passando corria o risco de levar. Outro amigo, dono de um restaurante ali perto, ficou indignado com o fato de precisar fechar, com a insegurança e medo dos clientes que já estavam ali dentro. Um dia desses, vi uma molecada descendo da paulista se divertindo em clima de carnaval. Arnaldo Jabor (referido a partir de agora como o “babaca mor” da mídia) saiu na TV criticando um protesto “só” por vinte centavos, mostrando não só uma postura elitista como mostrando completa falta de conhecimento sobre o que estava ocorrendo. Na minha humilde opinião, o que começou como um protesto localizado se tornou uma grande bagunça pela incompetência dos políticos e falta de preparo da nossa polícia.

Todos, menos o babaca mor, estão certos. Há pessoas realmente atingidas pelos vinte centavos de aumento, que passam horas à mercê de um transporte público de má qualidade, que tem direito de protestar (e talvez devessem ter espaço para protestar em outro lugar). Meu amigo e os outros comerciantes que tiveram prejuízo também estão certos. Já é difícil o suficiente ser empreendedor nesse país sem se preocupar com uma violência desse tipo. Até o cara que apanha um dia e chama os amigos para ir junto no outro eu entendo.

O poder público me deu nojo. O babaca mor pode ser tratado como aquele primo bobo que sempre tem uma opinião em festas de família, as pessoas fingem que escutam, ele se acha importante e nos deixa em paz. Mas quando falamos do governo e da polícia a coisa não pode ficar desse jeito.

Peço agora, que você pare o texto e veja os vídeos abaixo:

No primeiro vídeo, a polícia mira e ataca um grupo claramente identificado como jornalistas. No segundo, um policial diz que diz estar apenas cumprindo o seu trabalho, e prende um jornalista por ele estar com um preciosíssimo frasco de vinagre.

Há não muito tempo atrás, pessoas de farda assassinaram minha família dizendo que estavam só cumprindo ordens. 

As pessoas dos vídeos acima não são policiais. Deviam entregar suas fardas e ser impedidas de exercer qualquer cargo público o resto da vida. Eu passei mal depois de ver esses vídeos. Nunca senti tanta vergonha de ser brasileiro.

Vergonha de ver policiais mirando na cabeça das pessoas. Vergonha de ver ataques a jornalistas. Vergonha de uma polícia que ataca quem estava assistindo, filmando ou só teve o azar de estar no lugar errado na hora errada. Vergonha de ter um governo completamente incompetente, que na falta de saber lidar com uma situação, criou algo muito maior. Vergonha de uma polícia mal treinada, truculenta, irresponsável e perigosa. Vergonha das declarações sem noção de algumas “autoridades”. Vergonha quando eu lembro que nosso governo é eleito, que causamos nossa própria situação, e não posso nem me dar ao luxo de culpar um ditador enlouquecido.

Não importa o seu posicionamento político, se é de esquerda, direita, capitalista selvagem ou comunista vermelho. Se vota em Lula ou morre de saudades de FHC. Uma democracia é feita de diálogo, de informação. Um país sério não ataca a própria população.

Por isso, caro leitor, peço desculpas por quebrar o tema usual das minhas colunas. Mas hoje eu tenho vergonha de ser brasileiro.

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