Quando você estiver lendo este artigo já estarei em alto mar num sabático bem diferente do usual. Ele está sendo feito em uma volta ao mundo, com a duração de quatro meses, e visitando 5 continentes, 25 países e 37 cidades, no sentido da linha do equador. Realização de um sonho de infância, ele se tornou realidade como parte de um processo constante de me reinventar ao longo da existência. E sempre envolvendo projetos, ou a busca do equilíbrio, entre a vida pessoal e a profissional. Entendo que um dos primeiros desafios que todos nós enfrentamos como ser humano, é o de nos apropriarmos da nossa história e nos tornarmos o autor da nossa biografia. E tudo isto, paralelamente, à busca de uma coerência entre o que dizemos e aquilo que praticamos. Um segundo desafio é desenvolver a capacidade de nos reinventarmos, de forma constante, para as diferentes etapas e papéis que a vida nos exige, ou proporciona. Para tanto é necessário manter o esforço constante para o exercício do desprendimento. Vale ainda registrar que estes compromissos são indelegáveis. Tanto a família, escola, religião, e até mesmo o mundo corporativo, não possuem a legitimidade, ou as condições, para assumirem estas responsabilidades. No máximo elas poderão educar, influir, ou até mesmo fornecer referências e provocações. Mas, apesar de todo este entendimento por uma significativa parcela da humanidade, ainda é assustador o número de pessoas que, passivamente, esperam soluções ou receitas dos pais, gurus, orientadores educacionais ou espirituais, e mais ainda, dos planos de carreira das empresas em que trabalham. Embora tanto a expressão, como também os estímulos para se reinventar, tenham aumentado muito nos últimos anos, para muitas pessoas esta prática ainda é considerada incompreensível, dolorosa ou desnecessária. Uma das maiores barreiras está no conforto, bem estar o sucesso obtido naquilo que se vem fazendo. Poucas são as pessoas que se permitem deixar algum 'espaço' para que outros dêem continuidade a algo que vêm realizando com sucesso e competência. E isto só vai ser viável na medida em que o indivíduo tenha consciência de qual o seu 'legado' – sentido, valor, missão – em relação a tudo aquilo que realizou, ou realiza, até aquele momento. Segundo Walter Moreira Salles, um dos nossos brilhantes cineastas, 'na estrada, à medida que você ganha distância do ponto de partida, é mais fácil entender de onde vem e quem você é.' Para ao escritor João Paulo Cuenca, 'o limite entre desistência e resistência é muito estreito.' Estas são algumas das inquietudes que me levaram a buscar uma nova experiência de reinvenção, depois de viver papéis tais como filho, marido, pai, funcionário, empresário, escritor, avô, cidadão, voluntário, etc. A idéia é transitar pelo mundo, para refletir a partir das provocações e inquietudes que possam surgir do convívio com as mais diferentes culturas. Mas esta experiência também vai exigir uma revisão de conceitos e posturas frente à vida. E retomando as razões que levaram Walter M. Salles, a filmar 'Na estrada', diz ele que 'viajar, partir, é um reflexo do desejo de saber mais do que você já conhece sobre outra cultura. Hoje, com a multiplicação das imagens você pode ter a ilusão de que é possível viajar pelo computador ou através da TV. Mas nada substitui a experiência de sentir a aridez de um deserto ou a temperatura de uma geleira. Da mesma forma, nada pode substituir o encontro que você poderá ter com pessoas que vivem em culturas distantes da sua. Você acaba descobrindo que, na verdade, elas riem pelas mesmas razões que você ri e choram pelas mesmas razões que você chora. É para isso que servem as viagens, para aproximar um pouquinho mais as pessoas.' É por estas, e tantas outras inquietudes, buscas e razões que inicio mais este percurso para me reinventar, tendo em vista novas etapas da vida. Mas sempre na busca de renovados sentidos para a existência. Aguardem, pois estarei dando notícias.