Lembro como se fosse hoje o dia em que meu primeiro chefe na área de consultoria, Altamiro Castilho, diretor do Cetead, me chamou em sua sala e me deu um especial da Folha de São Paulo “Profissão: Palestrante”. O presente veio acompanhado da seguinte mensagem: “tá aí para você que quer ser palestrante”. (capa do especial publicado pela Folha de São Paulo em 31 de agosto de 2004). Fiquei duplamente surpresa: primeiro pelo título do especial (eu não sabia que ser palestrante era uma profissão) e segundo por ele ter afirmado que eu queria ser palestrante. Nove anos depois aqui estou falando sobre o tema. Confesso estar bem impressionada em como essa profissão tem crescido e em quantas pessoas ainda se encantam e desejam se tornar palestrantes, mas confesso ainda achar estranho. Bem, eu não sou uma palestrante, apesar de ministrar palestras e tenho uma opinião bem sólida sobre o assunto. Para mim, um palestrante é um especialista em algum tema e que, através de palestras, consegue abordá-lo de forma sucinta e impactante. Isso, inclusive, se aplica em relação às palestras técnicas e comportamentais (ou motivacionais) como se costuma falar. Alguém que faz uma apresentação para motivar uma equipe deve ter profundo conhecimento sobre o tema, até porque a palestra não motiva, ela desperta. Vejo muita gente enveredando na 'profissão' por conta do glamour, dos aplausos, do cachê (da relação custo x benefício, como alguns afirmam), mas poucos têm histórias de vida que mereçam se tornam uma palestra ou um embasamento que permita o mesmo. Semana passada, ministrei uma palestra no CMCRH em Ribeirão Preto cujo tema era: Critérios para contratação de palestras e consultorias in company. Fiquei impressionada quando 100% da plateia levantou a mão para responder positivamente à minha pergunta: quem aqui já decepcionou com o tema de uma palestra ou com um palestrante em si? Costumo brincar que é fácil separar os especialistas dos palestrantes: no primeiro slide que aparecer alguma porcentagem pergunte qual é a fonte; se ele souber pergunte um pouco mais sobre a pesquisa; se a pesquisa tiver sido feita por ele pergunte qual foi a amostragem (não precisa apelar para o desvio padrão). Infelizmente tem muita gente copiando e colando e usando sua capacidade de oratória para crescer como palestrante. Chega a ser engraçado ver tantos 'palestrantes' postando frases de célebres pensadores no facebook e assinando como se as frases fossem suas. Algumas delas acompanhadas por erros absurdos de português. Tem de tudo. Seria cômico se não fosse trágico ver tanta gente se intitulando palestrante sem embasamento, sem estudo, sem vivência. Forma, conteúdo e experiência são indissociáveis quando o objetivo é levar à reflexão, motivar para a ação, apresentar uma nova teoria, ampliar a visão etc. Se o objetivo é divertir a plateia aí a coisa muda de figura, mas é importante que isso fique claro. Gosto muito da frase do Paulo Freire que diz o seguinte: 'Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção'. Lembrando que, segundo definição de Sócrates, conhecimento é uma opinião verdadeira justificada. Para bons entendedores isso basta!