Em todos os treinamentos e palestras que ministro costumo usar a expressão 'algumas coisas só acontecem na Tailândia'. Nada contra a Tailândia, mas queria me referir a um lugar bem distante, afinal meu objetivo ao usar a expressão e suas variações é trazer para discussão situações vividas por aquele grupo sem me referir diretamente a ele. A ideia não é deixar os problemas reais de lado, mas trata-los sob uma nova perspectiva. Afinal, parece sempre tão mais fácil resolver os problemas dos outros, certo? Assim, ao invés de apontar aquele 'defeito' permito a critica à situação e a proposição de soluções como se aquele não fosse é um problema 'nosso'. O problema não é o problema em si, mas a maneira como enxergamos o problema e, principalmente, como lidamos com ele. Um método muito interessante e muito utilizado na resolução de problemas recorrentes é o MASP (método de análise e solução de problemas). O MASP é um método prescritivo, racional, estruturado e sistemático para o desenvolvimento de um processo de melhoria num ambiente organizacional, visando solução de problemas e obtenção de resultados otimizados. O MASP se aplica aos problemas classificados como 'estruturados' cujas causas comuns e soluções sejam desconhecidas, que envolvam reparação ou melhoria ou performance (e que aconteçam de forma crônica). Pode-se perceber que para serem caracterizados desta forma, os problemas precisam necessariamente possuir um comportamento histórico. Devido a esse fato, o MASP se vale de uma abordagem caracterizada como 'reativa', o que contrasta com a abordagem 'proativa' necessária aos problemas de engenharia ou de concepção. Minha ideia nesse artigo não é abordar o método, pois isso seria tema de um livro, mas promover reflexões sobre a maneira como o ser humano, de uma forma geral, lida com seus desafios. E, é claro, estou falando apenas dos habitantes da Tailândia… Na Tailândia, as pessoas conseguem enxergar os defeitos dos outros e criticá-los muito facilmente. Lá, difícil mesmo é conseguir ver suas próprias zonas de oportunidade (um eufemismo clássico para falar de problemas) e agir de forma a corrigir rotas e promover melhorias necessárias ao autodesenvolvimento. Um exemplo recente disso é o facebook. Quem não conhece alguém que se distancia (e muito) daquilo que costuma postar? São inúmeras as frases de efeito que remetem a pessoas fortes e bem resolvidas que, na verdade, não praticam um décimo daquilo que afirmam ser e fazer pelo face. Ainda bem que só gente da Tailândia age assim. A falta de consciência em relação a si mesmo impede o crescimento. Se eu acredito que sou um excelente profissional, que os problemas são sempre meus chefes e minha empresa, que o mundo corporativo boicota profissionais de alta performance que não se dão ao trabalho de fazer 'política', por exemplo, será quase impossível que essa pessoa compreenda os motivos reais de não conseguir crescer profissionalmente. Ela acaba se apegando às suas desculpas verdadeiras e 'perfeitas' para justificar o que lhe acontece e com isso não promove mudanças capazes de mudar seu status. Esse é um caso clássico da Tailândia. Não é uma questão de apegar-se a sua 'zona de conforto', mas de uma falta de clareza em relação aos próprios desafios. O processo de aprendizado e, consequentemente de desenvolvimento, pressupõe quatro etapas: I) Incompetência inconsciente: eu não sei aquilo não sei e, muito menos, o que deveria saber. II) Incompetência inconsciente: eu sei o que não sei, ou, pelo menos, o que eu deveria saber. III) Competência consciente: eu sei o que sei. Nessa etapa o indivíduo consegue colocar em prática seu conhecimento, porém ainda não possui habilidade necessária para agir de forma natural. IV) Competência inconsciente: o conhecimento necessário aqui está internalizado, de forma que passa a ser um comportamento natural. Cada uma das fases possui grandes desafios. A minha proposta nesse artigo está em discutir a fase 1: falta de consciência da incompetência. Ao delimitar o termo competência me arriscarei a utilizar como referência o 'conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes de uma pessoa que influenciam na qualidade do seu desempenho'. No entanto, o foco do que escrevo não é a competência em si, mas sim a consciência. Nesse sentindo, temos dois tipos de situações: as pessoas que de fato não reconhecem sua incompetência e aquelas que preferem não as admitir. Na década de 50, dois psicólogos americanos, Joseph Luft e Harrington Ingham criaram um modelo de autoconhecimento que ficou conhecido como a Janela de Johari. Ela é um instrumento precioso para compreender a importância de dar e receber feedback na missão de desenvolver competências. O princípio da Janela de Johari é que toda relação interpessoal está baseada no autoconhecimento versus a predisposição de receber feedback. De maneira simplista, são quatro quadrantes que cruzam o que conhecemos sobre nós e o que os outros conhecem sobre nós, formando as zonas: cega (eu não conheço algo sobre mim, mas os outros conhecem), desconhecida (nem eu nem os outros conhecem algo sobre mim), oculta (eu conheço algo sobre mim que os outros não conhecem) e a zona livre ou pública (onde há transparência entre o que eu conheço e os outros conhecem sobre mim). Trouxe aqui esse método, pois ele trata de feedback. Quando falamos da falta de consciência estamos nos referindo a algo que desconhecemos sobre nós mesmo, mas que muitas vezes outras pessoas conhecem (zona cega) e por vezes não (zona desconhecida). Para ampliarmos nosso autoconhecimento precisamos trabalhar essas duas 'zonas'. No caso da ZONA DESCONHECIDA à ampliação da consciência pode ser possível através de processos terapêuticos e de auto desenvolvimento. Esse é o espaço onde está grande parte das nossas informações. Alguns teóricos afirmam em 99% de inconsciente versus 1% de consciente. No entanto, é muito comum que só partamos para um mergulho profundo nessa zona quando algo começa a incomodar e as respostas não estão ao nosso redor. Já a outra zona inconsciente, a ZONA CEGA é mais fácil de ser trabalhada caso estejamos dispostos a receber feedback, afinal nela aquilo que desconhecemos está exposto e muitos ao nosso redor reconhecem. Receber feedback não é fácil, é incomodo, mas é necessário se desejamos evoluir como pessoas e profissionais. Costumo que dizer que a primeira vez que se recebe um feedback sobre algo é passível de avaliação, mas dois feedbacks sobre um mesmo assunto, vindo de pessoas diferentes merece consideração. Tudo isso, é claro, se a mudança proposta for coerente com os objetivos de vida. Se a pessoa não quer crescer, está plenamente satisfeita com seus resultados talvez não haja porque mudar. Mas se os desejos são maiores, e o contexto pede uma atuação diferenciada, a mudança torna-se uma premissa. Existe uma frase que circula na internet cuja autoria é atribuída ao teólogo William George Ward que diz o seguinte: 'A vida é como um eco. Se você não está gostando do que está recebendo preste atenção no que está emitindo' que traduz muito bem o que estou querendo concluir com esse artigo. Os resultados que obtemos são frutos daquilo que realizamos. Para agir de forma eficaz e eficiente é preciso ter clareza do que fazemos bem e do que precisamos corrigir, aprimorar, aprender etc. Para isso é preciso ter consciência do que se quer (objetivos), do que se é e do que é preciso tornar-se. Muitos se apegam a valores que não passam de crenças limitantes para evitar mudanças. Muitos preferem gastar energia na elaboração de desculpas que confortam a fazer o que precisa ser feito. Muitos preferem acreditar naqueles que se tornam cumplices dos seus fracassos (os ombros amigos), mas que não inspiram o sucesso. Muitos preferem fingir que são apenas pequenos deslizes, que não refletem a sua realidade. Alguns fazem isso de forma inconsciente, outros não, mas ainda bem que isso só acontece na Tailândia. A pergunta é: quem está enganando quem? Não é difícil reconhecer padrões. Analise suas histórias de sucesso e fracasso e verá como alguns comportamentos se repetem. Os processos de auto sabotagem precisam tornar-se conscientes para serem evitados, assim como os fatores críticos de sucesso precisam ser identificados a fim de calibrar expectativas de desempenho e disposição. Parafraseando Carl Jung: 'Quem olha para fora sonha, quem olha pra dentro desperta'. Sonhar é importante, mas não basta acreditar para tornar sonhos realidade. É preciso querer fazer, fazer e saber fazer, seja aqui ou na Tailândia.