Um antigo valor, ainda muito difundido e aceito na cultura do ocidente, e que se fortaleceu após o surgimento da sociedade industrial, começa agora a ser revisto na perspectiva das mudanças em andamento. E de uma forma até mesmo muito intensa, quando especulamos sobre o futuro da nossa sociedade. Estou me referindo ao ensinamento, que foi muito característico e comum no passado, que diz respeito as condutas e orientação dos pais, na relação com seus filhos. Segundo este princípio educacional, é de vital importância uma forte dedicação ao trabalho em toda a fase inicial da vida. E esta atitude tem como principal objetivo acumular primeiro um patrimônio, e reserva financeira, para só depois desfrutar da vida. Uma das características mais fortes de todo este comportamento tem sido representado pela expectativa que a aposentadoria gera nas pessoas. Ou seja, ela é, e continua sendo, muito associada à idéia de um pleno desfrute apenas no futuro. Ela é vivida e recomendada na perspectiva de um merecimento. Mas só depois de um longo período de sacrifícios e forte dedicação ao trabalho. Mas o que a prática tem demonstrado, e de uma forma muito evidente, é de que a maioria das pessoas não está preparada, e muito menos tem conseguido, desfrutar do tempo da sua aposentadoria. Quando a mesma chega as pessoas tem perdas que inviabilizam o seu desfrute. E não falo aqui apenas de questões financeiras ou da saúde. Mas do despreparo psicológico para esta tão esperada etapa da vida. Razão pela qual é importante rever este valor da nossa sociedade. Três fenômenos ainda demonstram que este tema é relevante, tanto na perspectiva atual e, mais ainda, quando olhamos para o futuro. O aumento nos índices de longevidade, acompanhado pela maior pressa dos mais jovens em galgar posições e remuneração no mundo corporativo, que deve ser somado ao crescimento no poder, e estímulos, ao consumo. Em um cenário de um mercado em constante inovação e crescimento. Segundo pesquisas do IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas-, que foram coordenadas pela economista Ana Amélia Camarano, 'trabalhar mais tarde na vida significa, também, acumular experiência e guardar conhecimento. O imperativo de trabalhar muito e ganhar bem, logo nas primeiras décadas de vida produtiva é enfraquecido, em nome de uma relação mais fluida entre lazer e labor. Antigamente, o bonito era trabalhar até morrer, para não ser o 'velho', encosto da família'. Prossegue afirmando que 'as pessoas vão ter menos filhos e uma vida financeira mais equilibrada. A tendência é cada vez mais buscar a qualidade de vida. A preocupação com o trabalho é menor quando as pessoas não precisam se preocupar em pagar a escola de dois ou três filhos'. Olhando na perspectiva de alguns outros impactos provocados pelo aperfeiçoamento, e maior disponibilidade, dos sistemas de comunicação, se pode especular de que as pessoas deverão trabalhar mais em suas próprias casas. O que deverá gerar mais incertezas e dificuldades para uma clara distinção entre o que significa trabalho, e o que deve ser o descanso. A própria arquitetura das casas deverá ser revista para estabelecer locais que permitam maior isolamento. Deverão ser criados ambientes onde as pessoas possam se sentir mais, ou menos, conectadas com o mundo exterior. Ou seja, vale pensar que em alguns locais da casa possa não existir interesse em permitir o acesso às novas e invasoras tecnologias de comunicação. Todas estas provocações nos levam a pensar que trabalhar e desfrutar estarão cada dia mais associadas. Ou seja, desfrutar não é incompatível com o trabalho. E muito menos isto significa que esta deva ser uma etapa da vida a ser adiada para um futuro incerto. Teremos que encontrar formas de equilíbrio entre ambos para a melhor qualidade de vida. E um consumo consciente também deve fazer parte deste processo de mudança. Vale pensar desde agora.