Os dados fornecidos pelo IBGE, relativos ao último censo realizado no Brasil, merecem e permitem inúmeras análises, bem como um devido planejamento de ações preventivas, sobre alguns impactos bastante previsíveis em nosso universo sócio-econômico. Neste artigo pretendo refletir sobre o crescente fluxo imigratório que estamos recebendo. E desta vez com duas características completamente distintas dos agrupamentos anteriores. Observa-se um significativo crescimento de imigrantes oriundos de culturas bastante distintas e, em boa parte, com uma formação acadêmica e profissional bem acima da média dos pioneiros de outras épocas. E até mesmo com nível de preparo superior à média da mão de obra nacional. Um relevante exemplo das informações divulgadas pelo censo é o crescimento, da ordem de 173,7 %, do total da população que se declara amarela – ou de origem asiática – em relação aos 37,6% de pretos, 26% de pardos e 11,4% de indígenas. E com uma diminuição de 0,3% da população que se diz branca. E vale destacar que toda esta alteração, do perfil populacional, ocorreu nos últimos dez anos. Um dado também digno de nota, e que mostra a forte preocupação destes imigrantes, tanto no sentido de se integrarem, como também na formação educacional dos seus filhos, é que 51% dos alunos do Colégio São Bento, localizado no centro da cidade de São Paulo, são chineses. Ao mesmo tempo continuamos sendo ainda um país onde a discriminação pela origem, cor da pele e símbolos sociais é real. Segundo o próprio IBGE, para 71% dos entrevistados na 'Pesquisa das características étnico-raciais da população: um estudo das categorias de classificação de cor ou raça' – realizada em 2008 – a cor da pele, ou origem, tem significativa influência nas profissões e no mercado de trabalho. Todo este conjunto de informações mostra, adicionalmente, uma interessante alteração na forma como este universo populacional está distribuído regionalmente. O nordeste foi a região que apresentou o maior crescimento de população amarela. Embora a região sudeste ainda mantenha, em números absolutos, o maior contingente de asiáticos. Para alguns estudiosos do fluxo migratório no mundo estamos vivendo uma terceira onda – a primeira foi de bens e comércio, a segunda era do dinheiro e transações financeiras – e agora chegou a dos imigrantes. Para o escritor Jason Deparle, 'talvez não haja uma força na vida tão onipresente, e tão subestimada, do que a migração, que está reordenando o globo.' O alerta que nos parece importante debater – preventivamente – se refere às políticas públicas, ações das empresas, instituições de ensino, meios de comunicação, formadores de opinião, e da sociedade em geral, sobre a forma como integrar este novo contingente de imigrantes. Ao mesmo tempo em que se desenvolvem programas, educativos e de treinamento, que visam fornecer o devido preparo para uma adequada adaptação cultural dos mesmos, à nossa multifacetada realidade brasileira. Precisamos tomar medidas antecipadas para não termos aqui os episódios de racismo, conflitos étnicos e intolerância que se observam em boa parte dos países europeus. Intensificados pela crise econômica mundial. Embora ainda cantemos em prosa e verso as características de 'povo cordial', de Gilberto Freire e Buarque de Holanda, qualquer crise financeira, social ou do nosso mercado de oportunidades de trabalho, poderão ampliar os preconceitos e reações, enrustidos nesta suposta cordialidade. Vale a pena pensar com muito otimismo sobre os vários significados, e importância, de sermos um país multicultural. E, num mundo cada vez mais globalizado este perfil populacional pode se tornar um indicador de alto valor agregado. Mas exige que atuemos de forma cautelosa e articulada antes que eventuais conflitos possam surgir em diferentes agrupamentos comunitários. E isto tanto nos pequenos como grandes centros urbanos. Este artigo se propõe apenas a introduzir provocações para um debate mais amplo sobre o tema.